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John Carter entre Dois Mundos

Pois é, já se foram 100 anos. Em 2012 um grande ciclo se completa para o clássico personagem de ficção científica John Carter que apareceu pela primeira vez em publicações pulp saído da mente do escritor Edgar Rice Burroughs, mais conhecido por também ser o pai de outro personagem icônico, o Tarzan. Mas quem diabos já ouviu falar em John Carter? Bom, eu aposto que muita gente não. O primeiro livro do personagem se chama John Carter e a Princesa de Marte e faz parte da coleção de ficção científica intitulada Barsoon, nome do planeta Marte nas histórias de Burroughs. Ao total o autor escreveu 12 romances protagonizados pelo personagem.

Em 1931, Bob Clampton procurou Burroughs para adaptar seus livros sob a marca da MGM. O autor aceitou e o processo de um filme animado teve início, já que fazer um live-action na época sobre a obra de Burroughs era algo inviável, pelo menos nesse mundol. Porém, com as críticas das sessões teste de exibição, a MGM decidiu que o projeto não teria lucro algum e mandou Clampton produzir uma série animada do Tarzan. Para desgosto de Clampton a Universal Studios lançou em 1936 uma série animada de Flash Gordon que teve um estrondoso sucesso nos Estados Unidos. Nos anos 70 o neto de Edgar Rice Burroughs achou entre as coisas do avô material do filme produzido por Clampton que nunca fora usado. Se tivesse sido lançado o filme de John Carter teria sido o primeiro filme animado do mundo no lugar de Branca de Neve e os Sete Anões de Walt Disney em 1937.

Durante esse um século de existência o herói de Burroughs já foi adaptado para as telas inúmeras vezes, mas foi em 2007 que a Disney anunciou que faria a sua própria versão das história do herói, coisa que pretendia fazer há anos, desde lá da década de 1980 quando o diretor John McTiernan havia sido escolhido para dirigir mais esta adaptação e Tom Cruise encarnaria o personagem, porém a precariedade de tecnicas visuais da época desanimaram o diretor que pulou fora do projeto que foi esquecido. A validade de compra dos direitos expirou e a Disney perdeu os direitos sobre o material que foi parar nas mãos da Paramount e teve ligados ao projeto nomes como Robert Rodriguez e Jon Favreau. Depois de muita água correr entre esses mundos a Disney conseguiu novamente os direitos sobre o personagem e o entregou para a Pixar.

A nova adaptação do romance teve seu título modificada para soar mais sutíl aos ouvidos daqueles que nunca haviam sequer ouvido falar no personagem. Em inglês o título é pura e simplesmente, John Carter, no Brasil porém recebeu o nome de John Carter entre Dois Mundos.

Na trama, John Carter, ex-capitão do Exército Confederado dos Estados Unidos está à procura de ouro em territótio Apache. Após ser preso pelo coronel Powell ao se recusar em ajudar seus conterrâneos americanos na batalha contra os indígenas, Carter consegue fugir mas é pego em um tiroteio entre os nativos e os caras pálidas. Na tentativa de fugir acaba encontrando em uma caverna um estranho medalhão que o leva para outro planeta, adivinha qual!

Após despertar em Marte, Carter é aprisionado por Tars Tarkas, líder de um povo chamado Tharks. No planeta Carter descobre devia a diferença de sua densidade corpórea e a gravidade de Marte que tem a habilidade de dar pulos de incontáveis metros e ainda detém uma força sobre-humana, algo que Carter descobre ser muito útil quando descobre que caiu em meio a uma guerra milenar pela sobrevivência de Barsoon.

Carter luta pela sobrevivência contra dois macacos albinos

A princípio lutando somente por si, Carter acaba aos poucos se apaixonando pela princesa da cidade de Helium, a mesma princesa que dá nome ao título do romance original de Burroughs. A princesa, Dejah Thoris está de casamento marcado com Sab Than, príncipe de Zodanga que massacra Helium com seu exército. O casamento na verdade serve como um cessar fogo para a guerra. Além disso Carter tem de lutar contra a indecisão de regressar para a Terra ou permanecer no planeta vermelho ao lado da mulher que ama.

John Carter e Dejah Thoris

Produção grandiosa rica em efeitos especiais, John Carte entre Dois Mundos não apresenta uma história original, o que é realmente original é a forma como ela nos é contada. O diretor Andrew Staton trabalhou duro ao lado dos roteiristas Mark Andrews e Michael Chabon para que cada página do roteiro fosse indispensável para o filme de mais de duas horas e meia de duração.

Apesar de ser rotulado como ficção científica esta só serve mesmo é de pano de fundo para uma clássica história de romance e tragédia com um protagonista altruísta mas despedadaçado emocionalmente, uma beldade audaciosa de sangue nobre e um vilão tão sádico quanto ganacioso. No caso o vilão Sab Than é vivido por Dominic West. O canadense Taylor Kitsch encabeça o elenco ao lado de Lynn Collins, ambos trabalharam no incrível X-Men Origens: Wolverine de 2009. Aqui, Collins se parece muito mais com a personagem que desempenhou no filme do carcaju. Mês que vem Kitsch também poderá ser visto ao lado da cantora Rihanna em Battleship, adaptação do clássico jogo Batalha Naval. Willen Dafoe, Mark Strong, Ciáran Hinds e Samantha Morton fecham o elenco de astros do filme.

Com um custo na casa dos US$250 milhões, John Carter entre Dois Mundos já tem sua continuação nos planos da Disney, a adaptação do segundo livro do personagem, The Gods of Mars, cujo título provisório adotado pelo estúdio é John Carter: The Gods of Mars. O plano da Disney é fazer uma trilogia com o personagem de Edgar Rice Burroughs.

John Carter entre Dois Mundos é sem dúvida um dos maiores filmes do ano. Na verdade ele é mais do que isso. É mais porque parece ser algo vindo de outro planeta e que jamais havia sido descoberto. Esse estranho sentimento de que o nosso futuro pode estar guardado em nosso passado e nem desconfiamos disso é algo estranho mas muito mais inspirador e que consegue acalentar nossas mentes e por quê não, nossos espíritos?

Trailer

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Os Homens que não Amavam as Mulheres tem novo trailer

Que a versão hollywoodiana de Os Homens que não Amavam as Mulheres está para estrear em dezembro todo mundo já sabe. Já foram noticiadas aqui no Chico Louco algumas notícias sobre a produção sombria de David Fincher estrelada por Daniel Craig e Rooney Mara.

O filme surpreendentemente segue uma narrativa pesada onde o diretor teve total liberdade da Metro-Goldwyn-Mayer e da Paramount para usar o máximo de violência que bem entendesse. Danem-se os censores! O próprio Daniel Craig se mostrou surpreso quando assistiu aos copiões do filme.

Aqui você confere o novo trailer do filme, vídeo de quase 4 minutos onde o clima denso mostra a competência de Fincher em recriar fielmente os eventos chocantes do romance do finado jornalista sueco Stieg Larsson.

Trailer 2
Os Homens que não Amavam as Mulheres

 

Uma proposta que não se pode recusar

Em 2005 uma versão do clássico O Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola foi lançada pela EA Games para os videogames. O game se baseava no primeiro filme da trilogia e teve até uma continuação alguns anos depois, mas agora quem recebe as cinco famílias mafiosas de Nova York são os usuários do Facebook.

Na trama do game intitulado The Godfather Five Families o jogador pode escolher entre as famílias rivais Corleone, Tattaglia, Stracci, Cuneo e Barzini e fazer um nome por conta própria e galgar através dos desafios a serem transpostos e se tornar o Don da família que escolheu. O jogo é desenvolvido pela Kabam, especialista em games para redes sociais em parceria com a Paramount Digital Entainment e deve ser lançado ainda esse trimestre.

 

Trailer: The Godfather Five Families

Vaza na rede trailer de Missão Impossível 4

A quarta parte da cinessérie Missão Impossível inspirada na série de TV homônima dos anos 70 vem sendo aguardado ansiosamente pelos fãs desde o dia em que a produção foi anunciada. O filme intitulado Missão Impossível 4: Protocolo Fantasma tem estreia marcada para o dia 16 de dezembro deste ano, mas até agora pouco havia sido revelado sobre o filme, e a mais quente das novidades veio direto da França.

O trailer em francês da nova aventura de Ethan Hunt foi filmado clandestinamente em um cinema e colocado na internet. Claro que a Paramount não gostou nada e para o nosso azar já tirou o vídeo do ar do nosso tão adorado Youtube mas…

No trailer vemos Tom Cruise em cenas espetaculares típicas da série. Dessa vez ele escala, dispensando dublês como de costume, o mais alto prédio do mundo, o Burj Khalifa, em Dubai.Nas imagens  Cruise aparece de cabelos mais longos o que nos remete ao segundo filme de 2000 que apresentava cenas impressionantes de ação, caminho que parece ter sido o escolhido para o novo filme. No vídeo também somos apresentados a Jeremy Renner que à partir do próximo filme deve assumir a franquia no lugar de Cruise. No elenco também estão Ving Rhames, Simon Pegg, Paula Patton e Josh Holloway. A direção é de Brad Bird e o roteiro de J. J. Abrams em parceria com André Nemec e Josh Appelbaum.

 

Agora é oficial, a Paramount disponibilizou o trailer de Missão Impossível 4: Protocolo Fantasma.

Trailer: “Os homens que não amavam as mulheres”

O trailer da nova versão de “Os homens que amavam as mulheres” do diretor David Fincher caiu na rede, mas não oficialmente, já que o trailer foi exibido somente em alguns cinemas da Europa e em poucas salas americanas em algumas cópias de “Se beber não case 2”. O video que está na internet foi filmado em um cinema na Holanda e divulgado três dias atrás.

O vídeo de um minuto e meio ao som de Immigrant Song do Led Zeppelin remixado por Trent Reznor e Karen O se inicia com a tarja vermelha que indica que o filme contém cenas fortes e inapropriadas para menores de idade, coisa rara de se ver em filmes americanos que geralmente procuram ser acessíveis a todos os públicos. Sem uma narrativa oral nas clássicas palavras guturrais que existem em todos os trailers hollywoodianos o video se deixa levar pela música e pelo corte rápido das imagens, apresentando uma atmosfera impactante de violência regada a muito sangue, exemplo é a visão que impressiona de um Daniel Craig banhado em sangue agonizando em uma banheira. O visual excessivamente sombrio e agressivo mostra o retorno do estilo de David Fincher de anos atrás.

A versão americana de “Os homens que não amavam as mulheres”, adaptação da primeira parte da aclamada Trilogia Millennium do falescido escritor sueco Stieg Larsson será lançada em dezembro deste ano.

 

01/06.

Ontem o trailer oficial do filme foi divulgado na rede apresentando a tarja verde no lugar da vermelha que aparecia na versão anterior. A cena mencionada nas linhas acima de Daniel Craig coberto de sangue em uma banheira não aparece nesta versão.

O casal protagonista, Rooney Mara e Daniel Craig

 

Trailer oficial de “Os homens que não amavam as mulheres”

 

Trailer: “Os homens que não amavam as mulheres”

Deus salve a rainha

 

Muitos conhecem a história de Cleópatra, a rainha do Egito que reinou e morreu há milênios atrás antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo. Histórias sobre ela transcorreram através do tempo e se enraizaram na cultura popular. Mesmo sem saber quem é a maioria pelo menos já ouviu o seu nome, mas será possível uma pessoa morrer duas vezes? O dia de hoje foi marcado pela morte de uma rainha. Não necessariamente do Egito mas do cinema, uma rainha que ficou marcada por interpretar uma outra, Cleópatra, esta foi Elizabeth Taylor que brilhou, encantou e imperou soberana e conquistou uma vasta legião de súditos ao longo de seu reinado.

Foi em 27 de fevereiro de 1932 que Liz Taylor nasceu em Londres filha de um casal americano. Com dez anos conseguiu seu primeiro papel e ainda por cima era o de protagonista em um filme para a Paramount. Com o passar do tempo Liz evoluiu como atriz e se tornou mulher hipnotizando milhões com sua beleza clássica de pele leitosa, cabelos nigérrimos, boca bem desenhada, sobrancelhas acentuadas e olhos cor de violeta. Liz interpretou papéis clássicos em filmes também clássicos dignos de uma estrela de seu porte. Seu papel mais marcante até os dias de hoje é na super produção Cleópatra de 1963 que apesar do custo exacerbado para a época de US$44 milhões não foi capaz de tirar a 20th Centurt Fox do vermelho arrecadando mundialmente apenas a quantia de US$57 milhões. Liz também estrelou filmes como Quem Tem Medo de Viginia Woolf? ao lado de um daqueles que integraram a sua vasta lista de conjuges, Richard Burton com quem contracenou também em Cleópatra. Em 1944 Liz integrou o elenco de Jane Eyre de Orson Wells, fato conhecido por poucos.

Elizabeth Taylor como Cleópatra


Mas Elizabeth Taylor não brilhou somente dentro das telas como também fora delas ao defender e se engajar em serviços humanitários e desempenhar um forte papel em causas filantrópicas. Liz foi agraciada pela rainha da Inglaterra, sua compatriota e xará com a Ordem do Império Britânico e recebeu o título de Dame além de também ter recebido do ex-presidente americano Bill Clinton a segunda mais importante medalha que um civil norte americano pode receber, a Presidential Citizens Medal oferecida a ela pela realização de seus diversos serviços filantrópicos.

A Cleópatra do cinema que recusou um Oscar honorário na 75ª premiação da academia também ficou conhecida por ter se casado oito vezes, duas delas com o ator Richard Burton e por ter problemas com o álcool.

Com o passar dos anos a atriz que foi a primeira mulher a superar um salário de um milhão de dólares por um filme  foi envelhecendo e deixando o cinema de lado para se dedicar às sua causas altruístas já mencionadas. Adoeceu e durante anos sofreu de insuficiência cardíaca crônica além de em 1997 ter tido de passar por uma operação para a retirada de um tumor no cérebro e por mais de cinco anos até sua morte fez uso de uma cadeira de rodas para poder lidar com sua dor crônica.  Em fevereiro Liz foi internada apresentando novos sintomas a sua insuficiência cardíaca no Centro Médico Cedars-Sinai em Los Angeles onde morava e após uma cirurgia faleceu aos 79 anos de idade.

Elizabeth Taylor assim como outros se foi. Deixou de ser um dos maiores ícones vivos e foi de encontro a tantos outros com quem continuamos a nos emocionar sempre que nossos olhos os vêem. Ao mais discreto som percebido por nossos tímpanos de uma trilha clássica de algum filme grandioso nossas emoções explodem dentro de nós e nos vemos sentados para mais uma sessão em companhia de algum grande astro. Elizabeth, a rainha, do cinema, não a da Inglaterra, a partir de hoje vai deixar saudades e assim como Cleópatra será sempre lembrada por suas histórias fantásticas. Como um de seus muitos súditos me coloco de joelhos e a saúdo mais uma vez.

Um estudo sobre Bravura Indômita

A imensa tela à minha frente estava escura, ladeada por paredes bordô com fraca iluminação e a melodia de um agradável hino de igreja enchia a sala do cinema. A impressão que tive foi a de estar em uma ópera, mas não haviam atores, somente várias fileiras de assentos vazios. Gradualmente  um sentimento foi crescendo em meu âmago e eu pude perceber que era a ansiedade que começava a aumentar. Tive então a certeza de que estava prestes a ver um verdadeiro espetáculo.

Depois do logo da Paramount e da Skydance Productions e da apresentação do provérbio 28:1 que diz: “Os ímpios fogem sem que haja ninguém a persegui-los; mas os justos são ousados como um leão” a primeira imagem surgiu, o hino ainda tocava ao fundo e a narração pela voz de uma mulher se iniciou. A imagem de um homem caído diante do alpendre iluminado de uma varanda com a neve que flutuava no ar demorando a cair, rodeada pela escuridão me inseriu ainda mais profundamente no universo que começava a se desdobrar diante de mim. Então um cavalo montado passou ferozmente pela tela causando alarido. Não havia mais volta. As luzes só se acenderiam ao final do espetáculo.

Bravura Indômita é baseado em um antigo romance do escritor Charles Portis originalmente publicado em folhetins no ano de 1968 no Saturday Evening Post. A obra literária é descrita como sendo excêntrica e sobretudo cômica. O livro de Portis foi tão bem recebido que uma adaptação para o cinema foi lançada no ano seguinte a sua publicação e trazia como protagonista John Wayne. Houveram sequencias malsucedidas e adaptaçãoes para a televisão até que mais de quarenta anos depois a obra de Portis ganhou vida novamente pelas mãos dos irmãos Coen.

O espetáculo ao qual fui assistir seria grande e eu sabia disso, mas ao final ele foi muito maior, foi algo monumental. O novo Bravura Indômita é definitivamente um dos filmes mais bem feitos em todos os seus aspectos até os dias de hoje. Simplesmente não há falhas e o texto que se segue, originalmente pensado como uma crítica se tornou um estudo aprofundado sobre o filme, algo na verdade como um tributo eu ousaria dizer. Cada palavra carrega um pequeno grão de admiração pelo feito cinematográfico que realmente faz do cinema a arte que é.

A trama apresentada em primeira pessoa pela personagem Mattie Ross, mulher por volta da meia-idade relata suas desventuras pelo velho oeste americano quando com 14 anos saiu em busca do assassino do pai. Mattie é uma jovem de criação cristã e dotada de uma sagacidade e capacidade de raciocínio impressionante. Um dia ela vê seu pai deixar a fazenda onde moram no estado de Arkansas para ir efetuar a compra de alguns cavalos em Fort Smith. Consigo o pai de Mattie, Frank Ross, levou um homem decadente que contratara como ajudante nos afazeres da fazenda somente por pena. Este homem atendia pelo nome de Tom Chaney. O pai de Mattie trazia uma soma de US$250 mais duas peças de ouro que carregava religiosamente para onde quer que fosse. Ross acaba despendendo apenas US$100 na compra dos cavalos e durante a noite ele presencia a discussão de Chaney em estado de embriaguez com um outro homem e intervém. Chaney mata seu empregador, rouba-lhe o restante do dinheiro, o par de peças e ouro e seu cavalo e parte rumo território indígena acreditando jamais ser punido pelo crime que cometera.

Ao chegar em Fort Smith para cuidar dos conformes do funeral do pai Mattie já vem convencida de uma ideia e nada a dissuadiria de ir até o fim para realizá-la. Traria o assassino do pai para Fort Smith para que este recebesse a pena que lhe cabia, a forca. Mattie fica sabendo que Chaney após fugir juntou-se ao bando de pistoleiros de “Sortudo” Ned Pepper. Ela então saí a procura de um caçador de recompensas que possa apanhar Chaney. De todos os que ouve falar Mattie se convence de que será o agente federal (U. S. Marshall) veterano da guerra civil e caolho Reuben J. “Rooster” Cogburn quem será capaz de capturar o carrasco de seu pai. Mattie acredita que Cogburn seja um homem de verdadeira bravura (true grit).

Com relutância mas precisando de dinheiro Cogburn aceita a proposta feita por Mattie e ainda concorda em levá-lo consigo na cruzada contra  Chaney que ela descreve ser algo parecido com uma caçada a guaxinins, igual à que fizera com o pai no verão passado. Durante a noite deste mesmo dia surge no caminho de Mattie um Texas Rangers chamado LaBoeuf (pronuncia-se LaBeef). Ele já vinha perseguindo Chaney há meses pelo homicídio de um senador no estado do Texas. Ele insiste em capturar o criminoso e levá-lo para seu estado para ser executado pelo crime do senador enquanto Mattie persiste que o homem deve ser enforcado em Fort Smith pela morte de seu pai.

Na manhã seguinte Cogburn parte sem Mattie acreditando que com isso ela desistiria de acompanhá-lo, porém a garota sai em busca de seu paradeiro e o encontra do outro lado do rio que divide o território indígena acompanhado de LaBoeuf. Destemida Mattie atravessa o violento rio montada em Pretinho, seu pônei que adquirira no dia anterior do mesmo homem que vendera os cavalos a seu pai. Questionado pela menina Cogburn diz ter feito um acordo com LaBoeuf e que juntos os dois homens iriam em busca de Chaney e o levariam para o Texas e dividiriam a recompensa por sua captura. Cogburn promete devolver parte do dinheiro que recebera de Mattie. Quando a jovem protesta LaBoeuf a açoita com uma vara. Tal ato desencadeia a atmosfera hostil que se manterá, apesar de gradualmente ir abrandando-se entre o Texas Ranger e o U. S. Marshall. Cogburn ordena que o patrulheiro pare de judiar da menina e o coloca sob a mira de seu revólver.

Os três partem através do aziago território indígena em busca do bando de Ned Pepper e seu novo agregado Tom Chaney.

Bravura Indômita teve sua pré-produção iniciada à partir de março de 2009 quando o projeto foi confirmado após boatos terem surgido cerca de um ano antes. Os irmãos Cohen que além de dirigirem a nova versão do romance de Charles portis escreveram o roteiro e comprometeram-se em fazer cada passagem de seu filme ser o mais fiel possível à cada parágrafo do livro original. Joel e Ethan Coen afirmaram nunca ter assistido ao filme de 1969.

Ethan disse que o que os atraiu ao projeto foi que havia algo simplesmente admiravel com o personagem de Mattie Ross e que o que eles pretendiam fazer era apenas passar o que se lia nas folhas do livro para que também pudesse ser visto e todo o sentimento que impregnado entre as capas foi um desafio à parte para ser transposto para as telas. Foi então que mais uma vez os irmãos Coen recorreram ao compositor Carter Burwell que orquestrou pela décima quinta vez uma produção de Joel e Ethan. Juntos os três tiveram a ideia de usar músicas de igreja do século XIX, algo que fosse severo mas sem ser deprimente. Burwell disse ter passado o verão somente na companhia de hinários.

Apesar da canção “God’s Gonna Cut you Down” na voz de Johnny Cass ter sido usada no primeiro trailer de Bravura Indômita somente hinos religiosos fazem parte da trilha sonora do filme. “Leaning on the Everlasting Arms” foi usado como tema para Mattie Ross e cerca de um quarto de toda a trilha é baseado nele. O hino foi escrito em 1888 pelo reverendo Anthony Johnston Showalter após este ter recebido de dois de seus pupilos cartas onde ambos informavam o reverendo sobre a morte de suas esposas. Enquanto escrevia em resposta o reverendo inspirou-se na seguinte frase retirada do Livro de Deutoronômio ou Devarim, nome dado à quinta parte da Torá dos hebreus. “O Deus eterno é o seu refúgio, e sob ele estão os exércitos perpétuos .” No resto da passagem pode ser lido: “Ele vai guiar seus inimigos para diante de ti, dizendo, ‘Destrua-os!’” Uma versão na voz de Iris DeMent de “Leading on the Everlasting Arms” tirado do album de 2004 Lifeline foi usada durante os créditos finais. Outros hinos também fazem parte da trilha sonora da película como “The Glory-Land Way” e “What a Friend We Have in Jesus”, este último escrito originalmente como um conto por Joseph M. Scriven para confortar sua mãe que vivia solitária na Irlanda enquanto ele estava na Canadá. O poema foi publicado anonimamente e somente em 1880 Scriven recebeu os créditos por ele. Anos antes em 1868 um acompanhamento musical já havia sido feito e o texto passara a ser oficialmente um hino que até hoje gera controvérsias por muitos o acharem sentimental demais, mas sua força popular é tão forte que ele ainda se mantém nos hinários modernos. Existem porém diversos arranjos que acompanham o hino que também possui títulos variados dependendo da linguagem em que foi publicado, como na Ásia onde ele é costumeiramente tocado em cerimônias de casamento sob a tradução de “Tsumi Toga o ni No”. Infelizmente o filme não pode concorrer ao prêmio da academia na categoria de melhor trilha sonora devido ao fato de os hinos serem considerados músicas já prontas e não originais.

No quesito elenco a produção também acertou em cheio. Jeff Bridges mostrou mais uma vez seu talento para interpretar personages decadentes mas de boa alma. Ele já o tinha feito em Coração Louco quando encarnou o cantor country beberrão Bad Blake que lhe deu o Oscar de melhor ator ano passado e agora mostra ainda mais paixão ao dar vida à Reuben Cogburn. Bridges parece ter mergulhando no mundo dos anti-heróis que primeiro pensam em si mesmos antes de considerar as outras pessoas e provar no final que tais pessoas somente são assim como um modo que encontraram para se proteger do mundo e que podem encontrar a redenção. Bridges circulava mesmo nos intervalos das filmagens com o tapa-olho de seu personagem para que se acostumar a enxergar somente com um dos olhos.

Jeff Bridges entre Ethan e Joel Coen


Outro que surpreendeu foi Matt Damon que encarna LaBoeuf. O ator conseguiu enfim deixar sua interpretação exageradamente mecânica e genérica de lado e viver seu personagem por completo, coisa que só tinha acontecido anos atrás quando Damon fizera O Talentoso Ripley. Assim como Jeff Bridges o ator também fez de tudo para entrar em seu personagem e chegou a usar elásticos que apertavam sua língua para que assim conseguisse falar com o sotque texano que seu personagem exigia.

No elenco também estão Barry Pepper e Josh Brolin. Pepper deu vida ao seu chará Ned Pepper contribuindo com um ar honroso ao pistoleiro horroroso. Barry Pepper usou próteses dentárias para conseguir o visual de podridão do personagem. Josh Brolin que já havia trabalhado com os irmãos Coen em Onde os Fracos não tem Vez e já tinha participado de um western na adaptação dos quadrinhos Jonah Hex ao lado de Megan Fox aqui interpreta Tom Chaney. Sua particpação na tela é curta mas a aura maléfica do personagem se impõe logo na primeira aparição de Brolin.

Por fim e com certeza a mais importante do leque de atores que compõe o filme está Haiee Steinfeld. A jovem atriz de apenas 14 anos foi a escolhida dentre 15 mil garotas que haviam concorrido ao papel-chave de Mattie Ross. De acordo com os irmãos Coen era preciso encontrar uma atriz que realmente soubesse atuar se não todo o filme cairia por terra. Hailee apesar de ter feito poucos filmes mostra em Bravura Indômita que o talento que guarda dentro de si é algo que não pode ser medido. Sua interpretação é profunda e dá uma verdadeira densidade ao personagem mas ainda sendo uma adolescente de 14 anos. O equilíbrio conseguido por ela é de fato tão harmônico que o espectador chega a desenvolver um relacionamento de confidencialidade com a personagem e sem surpresas se flagra em plena sessão conversando em seu íntimo com a personagem de Mattie Ross que em seus discursos em primeira pessoa responde diretamente ao espectador sentado à sua frente.

Hailee Steinfeld como Mattie Ross


Bravura Indômita segue uma linha menos sarcástica que as produções anteriores dos irmãos Coen cujo filme mais rentável em todos os sentidos foi o ganhador do Oscar de melhor filme em 2008 Onde os Fracos não tem Vez que teve um custo de US$25 milhões e arrecadou nas bilheterias uma bagatela de US$171, 627, 166. Já Bravura Indômita que custou US$38 milhões rendeu até agora o valor de US$213, 931, 442. Vale lembrar que o filme ainda se encontra em cartaz em vários países entre eles o Brasil.

Um dos aspectos que torna a nova versão cinematográfica do romance de Charles Portis uma das obras mais bem sucedidas do cinema moderno é a fotografia empregada por Roger Deakings que faz cada quadro parecer uma espécie de pintura renascentista contemporânea em representações do séc XIX onde a luz exerce papel-chave na composição de cada cena. O brilho do sol emoldura a tudo com um contorno agradável e torna cálida a atmosfera entre os personagens que em pouquíssimo tempo se tornam íntimos do espectador de um modo quase intoxicante. Durante as quase duas horas de duração do filme os personagens que transitam pela tela se tornam como membros inseparáveis de quem assiste ao filme não só por suas interpretações excepcionais mas pelas “pinceladas” de Deakings onde os dias parecem os mais aconchegantes possíveis e as noites as mais aterrorizantes de todas.

Entre os dois filmes existem muitas semelhanças, passagens reproduzidas fielmente das páginas de Charles Portis. Linhas de diálogos inalteradas como na cena onde Cogburn está testemunhando no tribunal e após descer as escadas se encontra com Mattie e está lhe prepara o cigarro dizendo que a palha estava seca demais para o modo com que ele o tentava enrolar. Outra semelhança se dá em um das cenas finais de ambos os filmes quando Cogburn confronta o bando de Ned Pepper enquanto Mattie e LaBoeuf os observam do cume da montanha. As falas de todos os personagens em tal cena são idênticos, a única diferença se dando pelo fato de que no filme original de 1969 John Wayne carrega um revólver e uma espingarda enquanto que na novo versão dos irmãos Coen o Cogburn de Jeff Bridges porta dois revólveres. Porém o final das duas produções se difere entre si provavelmente devido à época em que foram realizadas fora o fato de o filme de 1969 não ser narrado em primeira pessoa.

John Wayne e Jeff Bridges como Reuben J. “Rooster” Cogburn


Iris DeMent canta “Leaning on the Everlasting Arms”