Arquivos do Blog

Pelada, Futebol na Favela

Depois da breve apresentação do diretor Alex Miranda, que fez com que a criançada que protagoniza seu documentário se aquietasse em suas poltronas, é com a bola no pé que o documentário “Pelada, Futebol na Favela” entra em cena.

A produção acompanha o sonho de garotos de uma favela que almejam se tornar jogadores de futebol profissionais. Além dos relatos tocantes dos meninos, o documentário também conta com a presença de craques como Ronaldo Fenômeno, Neymar, Emerson Sheik, Vampeta, Luis Fabiano e Serginho Chulapa, além de entrevistas com comentaristas esportivos como Juarez Soares, Neto e Silvio Luiz. Enquanto contam suas experiências antes e depois da fama, os jogadores e especialistas destacam as diferenças entre a boa e velha pelada praticada nos campos de areia ou no asfalto, com o futebol de escolinhas e o esporte dentro dos estádios.

Embalado por uma trilha composta por funk, samba e rap, “Pelada, Futebol na Favela” não conta nada de novo em sua uma hora e quarenta minutos de duração. A impressão que se tem é a de estar assistindo um quadro dramático de um programa dominical, só que três vezes maior. O documentário apresenta fatos há muito conhecidos, e no máximo tenta se aprofundar em uma ou duas histórias, como a de Tonico, um senhor de idade que foi um grande goleiro da comunidade em que vive, porém quando parece que a história vai esquentar, a câmera volta mais uma vez para os relatos de algum jogador de renome que enfeita a produção.

O ritmo do documentário é muito bom, estilizado e com uma montagem ágil, traz uma câmera nervosa que percorre todos os cantos da comunidade na qual foram rodadas as entrevistas com os garotos. O problema são as informações batidas; e os momentos mais tocantes são ver um ou outro relato dos garotos que sonham se tornar grandes astros do futebol para melhorar a vida de suas famílias. Acontece que para se obter tal depoimento não era preciso uma produção inteira voltada para o futebol, onde as informações andam em círculos, sempre se repetindo.

Infelizmente “Pelada, Futebol na Favela” fica sem fôlego muito rápido e bate na trave. O documentário se torna, na verdade, um excelente remédio para quem anda com o sono atrasado ou sofre com insônia. É uma produção voltada apenas paras os verdadeiros fanáticos do esporte, que não se incomodam em ser apresentados aos mesmos fatos incontáveis vezes.

Trailer

Noites sem Dormir

Assinado por Eliane Raheb, o documentário “Noites sem Dormir” acompanha Assaad Shaftari, ex-oficial de alta patente de um grupo cristão e direitista que atuou durante a Guerra Civil do Líbano (1975 – 1990). A gancho se dá quando Assaad revela seus segredos mais obscuros sobre as incontáveis vidas que tirou ao lado de seus companheiros. É nesse ponto que uma história paralela entra em cena, a de Marayam Saiibi, que procura pelo filho desaparecido há trinta anos, jovem guerrilheiro que fazia oposição à frente cristã.

Construído de um modo pouco convencional para um documentário, “Noites sem Dormir” deixa evidnete desde o início que em determinado momento será inevitável um encontro entre Assaad e Marayam. Quando tal encontro finalmente acontece, a tensão que toma a tela é incrivelmente densa, pois mesmo fazendo uso de fotografia e planos de câmeras dignos de um filme ficcional, o que é mostrado é a mais pura realidade de uma mãe que confronta o possível executor de seu filho.

Eliane Raheb também aparece em cena na forma de um fio condutor entre as várias histórias que permeiam o seu documentário. Fazendo pouco uso de câmera estática, a diretora prefere acompanhar seus entrevistados para onde quer que vão. Fica evidente que a cineasta construiu toda uma atmosfera para sua produção documental, como o plano em que Assaad conta suas histórias cada vez mais sombrias em uma tarde chuvosa que culmina em um trovão e na queda de luz do quarto de hotel onde se encontra, enquanto tem de fitar seu próprio reflexo no espelho.

A sensação de ver ambos os lados da guerra de diferentes pontos de vista e como, 23 anos após seus término, muitas feridas ainda não se cicatrizaram e jamais se cicatrizarão. É como ver uma inversão de papéis, onde o sempre culpado Assaad busca o perdão sem jamais encontrá-lo, e onde Marayan busca por um fio de esperança em meio a toda a raiva que a consome. É sem dúvida, uma das produções mais impactantes já concebidas.

Trailer

A Menina dos Campos de Arroz

O filme “A Menina dos Campos de Arroz” acompanha os dias da pequena A Qiu, de apenas 12 anos. A garota mora com o irmão mais novo e os avós em uma aldeia no sul da China, tirando seu sustento da plantação de arroz dos arredores.

Narrado em primeira pessoa pela jovem protagonista como a um diário, a vida de A Qiu se modifica quando sua avó morre e seus pais tem de voltar da cidade para cuidar dela e de seu irmão. A sobrevivência se torna mais difícil e a família se vê frente a frente com desafios cada vez mais ferrenhos para conseguir se manter e realizar seus sonhos.

Dirigido por Zhu Xiaoling, o filme tem ares de uma produção documental e constrói sua narrativa de modo tão semelhante à realidade que logo de início a ideia de uma história verídica se estabelece e se mantém até o final do filme, quando os créditos começam a subir. Afinal, porque alguém iria conceber um filme ficcional de modo tão real?

Com uma sacada sutíl, “A Menina dos Campos de Arroz” se submete a retratar a vida como ela é, seguindo de modo linear até um clímax completamente inesperado, assim como a vida em si. Mas este é só mais um capítulo passageiro que não merece mais destaque que qualquer outro já mostrado. Xialing mostra que as vezes não adianta remar contra a correnteza, pois certos caminhos já estão traçados.

Bertolucci sobre Bertolucci

O documentário “Berolucci sobre Bertolucci” é como costuma ser um documentário, um relato sobre algo real. No caso, a vida e a obra do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Porém este aqui tem uma magia diferenciada, uma magia de descobrimento de uma das mentes mais controversas e geniais do cinema, como se fôssemos os únicos a descobrir seus segredos, jurando infantilmente guardá-los para nós mesmos..

Responsável pelo texto, direção e montagem, o italiano Walter Fasano entrega em “Bertolucci por Bertolucci” um tributo a este grande nome do cinema na espécie de um diário, onde o famoso cineasta conta em um vai e vem de memórias, sua vida e a história de sua arte, suas inspirações e nenhum arrependimento! Navegando pela filosofia de Bertolucci, o documentário repleto de imagens raras de entrevistas e diários em video, traz a tona a filosofia do diretor dos aclamados “O Conformista” (1970), “O Último Tango em Paris” (1972), “1900” (1976), “O Último Imperador” (1987) e “Os Sonhadores” (2003).

A impressão que temos é a de estarmos assistindo a uma aula humildemente ministrada por Bertolucci. Impressionante como a cada frase sua, acentuada por seu sorriso fino e torto, faz com que o cinema em si nos abrace, deixando clara e distante a simbiose de filmes enlatados e milionários de um mundo contemporâneo egoísta, que ofusca o belo de um simples enquadramento de câmera embalado pela trilha certa. Com sua filosofia de câmera erótica, Bertolucci descreve seus filmes como musicais sem música e torna tão cristalino como a água suas motivações para fazer filmes e como ele ama cada personagem que põe na tela.

É como desvendar um mistério, uma mente brilhante movida pela poesia de uma vida inteira que ganhou movimento através de filmes irretocáveis. Por mais absurdo que seja, ao terminar a sessão, é possível considerar Bernardo Bertolucci como um amigo íntimo compreendido por aqueles que também só conseguem ver o mundo através das lentes de uma câmera erótica. Como o próprio cineasta diz, “O cinema é reflexo do mundo”. Mundo este que não seria o mesmo sem Bernardo Bertolucci.

Vale dos Esquecidos

O calor não importava mais. O crepitar incessante das altas chamas não podia mais ser ouvido. As línguas de fogo havia vaporizado todo e qualquer tipo de vida existente. E junto estava matando seu espírito. Pois é, bem piegas mesmo, mas é a realidade e é disso que o documentário Vale dos Esquecidos da iniciante Maria Raduan retrata. Não especificamente de queimadas mas sim da morte do espírito da nossa terra que há mais de 40 anos vem sendo palco de uma batalha interminável entre índios, fazendeiros, sem terras e posseiros no estado do Mato Grosso do Sul.

Com o tamanho equivalente a nada mais nada menos do que 252 ilhas de Manhattan, a chamada Fazenda Suía-Missú foi fundada lá nos anos 70 por um grupo empresarial chamdao SUDAM que forneceu a quantia estimada de US$30 milhões para Funai, que na época atendia pelo nome SPI, isso apenas depois que a fundação que representa os direitos dos remanescentes indígenas no país afirmar à SUDAM que na área não existia nenhum índio. Consequentemente com a chegada dos novos moradosres os caras-vermelhas foram literalmente postos para correr na base da bala!

Em Vale dos Esquecidos a cineasta não fez apenas um relato da guerra, ela poetizou toda a matança e tragédia infindável de décadas, o que aumentou ainda mais a dramaticidade dos eventos que nos nossos dias atuais onde até a vida se tornou algo tão banal, a possibilidade de se chocar voltou a ser algo possível e menos maquinal do nosso cotidiano cibernético de passatempos vis. A descoberta de algo real e palpável como a injustiça, morte e sangue, tudo caído sobre a terra como adubo faz o cérebro pegar nem que seja no tranco. E se engana quem pensa que Maria Raduan focou-se somente nos índios, a cineasta ouviu todos os lados dessa guerra para mostrar preto no branco e no vermelho a real situação enfrentada por essas pessoas sem paz.

Porém o relato dessa realidade também conta com o corte de Jordana Berg e a fotografia de Sylvestre Camp que nos deleitam com o cenário cálido e árido; verde e azul do Mato Grosso, com suas texturas e a distância infinita que parece haver de lá para cá. É o arco sem fim de um caos enraizado na pele e na terra, um arco de um lugar não esquecido por Deus mas sim pelo sempre, ou quase sempre, governo e seus bolsões cheios de omissão.

O documentário que parece ainda passar batido para os menos interessados ou menos afinados com o circuito, já participou de festivais em Chicago e Canadá. O descaso dos grandes interesseiros midiáticos, dos passatempos vis, de nós mesmos, apagam a verdade que nem chegamos a saber sobre o terror de nosso próprio solo.

Trailer