Bertolucci sobre Bertolucci

O documentário “Berolucci sobre Bertolucci” é como costuma ser um documentário, um relato sobre algo real. No caso, a vida e a obra do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Porém este aqui tem uma magia diferenciada, uma magia de descobrimento de uma das mentes mais controversas e geniais do cinema, como se fôssemos os únicos a descobrir seus segredos, jurando infantilmente guardá-los para nós mesmos..

Responsável pelo texto, direção e montagem, o italiano Walter Fasano entrega em “Bertolucci por Bertolucci” um tributo a este grande nome do cinema na espécie de um diário, onde o famoso cineasta conta em um vai e vem de memórias, sua vida e a história de sua arte, suas inspirações e nenhum arrependimento! Navegando pela filosofia de Bertolucci, o documentário repleto de imagens raras de entrevistas e diários em video, traz a tona a filosofia do diretor dos aclamados “O Conformista” (1970), “O Último Tango em Paris” (1972), “1900” (1976), “O Último Imperador” (1987) e “Os Sonhadores” (2003).

A impressão que temos é a de estarmos assistindo a uma aula humildemente ministrada por Bertolucci. Impressionante como a cada frase sua, acentuada por seu sorriso fino e torto, faz com que o cinema em si nos abrace, deixando clara e distante a simbiose de filmes enlatados e milionários de um mundo contemporâneo egoísta, que ofusca o belo de um simples enquadramento de câmera embalado pela trilha certa. Com sua filosofia de câmera erótica, Bertolucci descreve seus filmes como musicais sem música e torna tão cristalino como a água suas motivações para fazer filmes e como ele ama cada personagem que põe na tela.

É como desvendar um mistério, uma mente brilhante movida pela poesia de uma vida inteira que ganhou movimento através de filmes irretocáveis. Por mais absurdo que seja, ao terminar a sessão, é possível considerar Bernardo Bertolucci como um amigo íntimo compreendido por aqueles que também só conseguem ver o mundo através das lentes de uma câmera erótica. Como o próprio cineasta diz, “O cinema é reflexo do mundo”. Mundo este que não seria o mesmo sem Bernardo Bertolucci.

Como um Leão

Nunca imaginaria que um filme chamado “Como um Leão” falaria sobre futebol. Eis a surpresa, quando descubro que o filme, do original em francês “Comme un Lion” é um trocadilho com o time francês Lyon, time preferido do protagonista. O jogo de palavras já destaca a sagacidade da produção.

O jovem Mitri de apenas 15 anos tem um sonho: se tornar jogador profissional de futebol. Nascido em Senegal, ele e seus amigos se vêem diante de uma oportunidade única quando durante um campeonato, são observados por um olheiro que escolherá apenas um deles para levar até a Europa. Mitri se destaca entre os demais e é o escolhido, porém não tem o dinheiro necessário para a viagem. Sem desistir de seu sonho, Mitri convence a avó a ajudá-lo, colocando a família em dívida com a aldeia em que moram.

É quando os locações douradas e cálidas, cheias de risadas do Senegal mudam drasticamente para uma Paris cinzenta e depressiva, que Mitri, justamente com o espectador se descobrem enganados. Mitri por ser abandonado ao léu por aqueles que o trouxeram à França com promessas falsas, e o espectador por ser surpreendido com a mudança impactante de atmosfera, não só visual, mas dramática, trazida pelo roteiro antagônico ao primeiro ato.

Sem ter onde morar ou o que comer, o caminho de Mitri se cruza com o de um treinador de futebol de um time de garotos. Querendo provar do que é capaz, Mitri invade o campo e mostra sua habilidade. As vidas de ambos se entrelaçam tanto fora como dentro do campo, onde o sempre otimista aspirante a jogador se choca com a personalidade autodestrutiva de seu novo técnico e amigo, que descobre em Mitri um filho.

Escrito e dirigido por Samuel Collardey, “Como um Leão” se mostra um filme de balanço em todos os sentidos. O drama não é pesado ao ponto de tornar o filme massante, assim como as personalidades dos protagonistas se completam e também o cenário e a própria escrita do roteiro com as locações internacionais tão distintas.

Apesar de tratar de futebol, mesmo os que não são entusiastas do esporte não vão ter do que reclamar; afinal, o tema principal do filme de Collardey é a busca cega de um sonho e de como sujar as mãos, nesse caso os pés, para realizá-lo.

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A Filha

Até onde você iria por uma pessoa amada? As vezes só descobrimos a resposta para essa pergunta quando nos vemos atados a uma situação inimaginável. É justamente esta encruzilhada sem saída que o filme grego “A Filha”, retrata.

A trama do filme de Thanos Anastopoulous acompanha a jovem Myrto de 14 anos e as consequências de suas ações extremas. Com um comportamento beligerante em relação à mãe, Myrto vê no pai o seu refúgio, porém tudo muda quando este desaparece. Determinada a encontrá-lo a jovem parte em seu encalço. É quando descobre que o pai fugiu em decorrência de uma dívida com seu sócio, que levou ao fechamento de sua marcenaria, que Myrto resolve se vingar. Sem medir consequências ela rapta o filho do sócio de seu pai e o mantém preso na marcenaria agora abandonada.

A escolha da atriz juvenil, Savina Alimani para o papel de Myrto se mostra um grande acerto. Na verdade, o único acerto do filme. Com seu rostinho impassível, a jovem pode despertar a compaixão de alguns como ira de outros, ou até mesmo ambos os sentimentos. Esse balanço de emoções é o que compele o espectador a continuar sentado com os olhos na tela, nada mais.

Com um roteiro que economiza nas falas, nada mais sobra. Com cenários apertados e atores monossilábicos e sem tempo de trabalhar qualquer emoção ou expressão facial, o filme de Anastopoulos tenta ganhar o espectador com uma falsa ideia de tensão, a não ser a de querer abandonar a sessão.

O roteiro escrito por Anastopoulos e por Vassilis Giatsis perde tanto a linha que nem os vilões mirins de Harry Potter pensariam em fazer as coisas que Myrto se propõe a fazer. A surrealidade é tanta que, na tentativa de deixar um final aberto, o diretor não deixa final algum! A única dívida que realmente importa no filme é a dívida que Anastopoulos deixa para com o público.

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Confissão de Assassinato

Grande parte da euforia causada pelo cinema vem do inesperado. Ainda mais se tratando da Mostra Internacional de Cinema, esse fator é elevado a uma potência muito maior, por isso cair de paraquedas em um filme do qual só sabemos o nome é um dos grandes prazeres de um cinéfilo.

Escrito e dirigido por Jung Byung-Gil, “Confissão de Assassinato” mostra um serial killer que há 17 anos tirou a vida de 10 mulheres, e agora lança um livro com detalhes de seus crimes. O autor se torna uma celebridade do dia para a noite enquanto seu best seller lucra milhões país afora. O detalhe é que seus crimes já prescreveram e oficialmente ele  não pode mais ser preso, enquanto o policial responsável pelo caso nada pode fazer a não ser se consumir com o desejo de vingança pela mulher amada, uma das vítimas do assassino.

Fazendo uso de uma montagem agitada que se funde a planos sequências de muita ação, que se torna confusa em apenas uma cena de perseguição noturna, “Confissão de Assassinato” traz o corte quase que perfeito na união de diferentes gêneros em um único longa. Suspense, ação e drama ajudam Byung-Gil a quebrar as cenas mais tensas com lutas e perseguições inimagináveis, que com um simples corte arrasta o espectador para debaixo da lâmina afiada de um assassino asqueroso.

Formado em artes plásticas o diretor soube bem como tratar o visual de seu filme. Com takes abertos que enaltecem a megalomania do vilão ou as cenas escuras sob a chuva que reforçam a ira abafada do herói, não é difícil, em breve microsegundos mudarmos de lado e torcermos pelo algoz carismático. Mas isso muda com um pensamento de culpa que põe os neurônios em conflito constante. Com reviravoltas intermináveis onde qualquer outro filme se encerraria com conformismo, “Confissão de Assassinato” é uma surpresa a cada take. Repleto de personagens característicos, um deles até carrega uma balestra e traz um visual digno do mago das artes Yoji Shinkawa!

Não é surpresa para ninguém que o cinema coreano é um dos mais prestigiados do mundo. Desse modo “Confissão de Assassinato” se mostra uma aposta certeira assim que os primeiros nomes surgem na tela.

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Depois da Chuva

Em ano de manifestações, nada melhor do que um filme carregado de consciência política para fazer a tarde valer a pena. É o caso de “Depois da Chuva”, primeiro longa da dupla Cláudio Marques e Marília Hughes.

Situado em Salvador no ano de 1984, a trama acompanha o introspectivo Caio, que a seu modo luta contra a visão reacionária de seu colégio conservador logo após a queda da ditadura militar. A história do jovem se mescla com a fase pela qual passa o país naquele momento. Ao mesmo tempo que os anos de chumbo ficam para trás e a escolha de um novo presidente da República começa a se agilizar, o mesmo acontece no colégio de Caio. Porém, enquanto o novo presidente do Brasil seria eleito pelo Colégio Eleitoral, sem o envolvimento direto do povo, o mesmo acontece nas eleições para presidente do grêmio da escola de Caio, onde o novo representante seria escolhido a dedo pela direção do colégio.

Após a revolta dos estudantes que exigem ter o poder de escolher seu representante, o esquerdista Caio causa o barulho necessário dentro da escola com sua banda de punk rock e ganha a empatia dos outros alunos, se lançando como um dos candidatos a presidente do grêmio. Tal ato causa revolta em seus amigos mais extremistas mas também acaba por despertar a admiração da personagem de Sophia Corral.

Escrito por Cláudio Marques, “Depois da Chuva” não é apenas um filme de conflitos adolescentes como muitos que tem saído por aí ultimamente. É na verdade uma crítica à política brasileira e também a alguns políticos que circulam nos corredores do poder até hoje e que lá atrás, defendiam a visão opressora que castigou o país desde o golpe militar de 1964.

Produtores do festival baiano Panorama Internacional Coisa de Cinema, Cláudio Marques e Marília Hughes já assinaram os curtas “O Guarani” (2008), “Nego Fugido” (2009), “Carreto” (2010), “Sala de Milagre”s (2011) e “Desterro” (2012).  Com tamanha experiência a dupla mostra com “Depois da Chuva” uma conotação diferente para um “filme cabeça”, pois sem tentar se provar cult, o longa age diretamente na consciência de quem o assiste. É mais que um filme, é uma lição de cidadania que mostra que “um filho teu não foge à luta” jamais.

HQ dos irmãos Costa ganhará adaptação em curta-metragem

A história em quadrinhos “Matinê” dos irmãos gêmeos Magno e Marcelo Costa está prestes a saltar das páginas para as telas. A ideia de adaptar a HQ veio do cineasta Elder Fraga, que trabalhou com os gêmeos em seu último curta-metragem, “Boca Fechada”, lançado no início do ano.

Em “Matinê” (2011) vemos a rotina de um grupo de traficantes de drogas virar de cabeça para baixo quando se deparam com um matador misterioso. Com traços próprios, os irmãos Costa também se inspiraram em artistas como Mike Mignola (X-Men, X-Force, Homem-Aranha, Hellboy) e Ben Templesmith (30 Dias de Noite) para compor a sua obra. “Matinê” também traz diálogos breves e quadros concebidos como ângulos de câmera de um filme. A HQ nada mais é que uma homenagem aos filmes dos machões do cinema de ação e contou com a participação do artista Marcio Moreno

A adaptação porém, só poderá sair do papel (literalmente) através do método crowdfunding. Para quem não sabe, este meio de financiamento nada mais é que pessoas comuns doando verba para que um determinado projeto ganhe vida. Para a adaptação de “Matinê”, Elder Fraga e os irmãos Costa pretendem arrecadar o valor de R$61 mil. O valor elevado se dá devido aos altos custos dos efeitos visuais e em 3D que o cineasta usará para transportar fielmente a HQ para as telas. Alguns projetos que atualmente fazem uso do crowdfunding são o filme independente da detetive juvenil “Veronica Mars” e o game “Shadow of the Eternals”, continuação do aclamado “Eternal Darkness”, de 2002.

Esperando o sinal verde, “Matinê” já está com o elenco definido. Encabeçando a lista está o ator Julio Rocha, no papel do matador que manda os traficantes para a terra dos pés juntos. Atualmente o ator está no ar como o Dr. Jaques Sampaio da novela “Amor à Vida” da Rede Globo. No elenco também estão nomes como Ricardo Gelli (“O Último Dia”, “Boca Fechada”), Roberto Brito (“Nigéria – Fim da Linha”), Camila dos Santos, Gabriel Losso (“O Último Dia”), entre outros.

Diretor de cinema e produtor teatral, Elder Fraga já assinou quatro curtas-metragens. Os premiados “O Último Dia”, “Nigéria – Fim da Linha”, “Boca Fechada” e o ainda inédito “Os Bons Parceiros” da Obra de Plínio Marcos, que será lançado no fim do ano. Com seus primeiros três filmes o cineasta ganhou 15 prêmios e participou de 56 festivais nacionais e internacionais.

Para mais informações sobre “Matinê” e sobre como ajudar para que o projeto ganhe vida, entre no site do filme, abaixo.

http://matineofilme.com.br/

O Homem de Aço

Mesmo voando alto e com quase US$700 milhões de bilheteria nas costas o Homem de Aço chegou com um mês de atraso na nossa terrinha verde e amarela. Mas esses 30 dias extras só fizeram aumentar a vontade em ver o reboot cinematográfico do último filho de Krypton.

Com uma trama linear, “O Homem de Aço” começa com a já conhecida destruição do planeta Krypton. Dessa vez a causa do fim do planeta não é impacto iminente contra o sol vermelho que se dirige em direção ao planeta, mas sim a escassez de recursos naturais de Krypton por seus habitantes. Sendo assim, Krypton se tornou instável o bastante a ponto de implodir. Na esperança de evitar a total extinção de sua raça, Jor-El planeja mandar seu único filho, Kal-El, para um planeta com o ecossistema mais parecido com o do seu; no caso, a Terra. Nesse meio tempo o general Zod tenta um golpe de estado mas após se digladiar com Jor-El é preso e aprisionado na já conhecida Zona Fantasma. Vingativo, Zod jura destruir o filho de Jor-El. A partir daí o filme só caminha em linha reta, mostrando o jovem Kal-El já na Terra, sob o nome adotivo de Clark Kent e fazendo de tudo para esconder suas habilidades especias de nós terráqueos e em constante busca do seu verdadeiro destino e de sua origem.

“Moço, deixa eu entrar! Esqueci minha licença para voar na outra roupa.”

Sob a batuta única de Zack Snyder, produção dedicada de Christopher Nolan e escrita detalhista de David Goyer, “O Homem de Aço” dá uma boa repaginada no personagem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster 75 anos atrás. Agora completamente contemporâneo, o novo Superman tenta ser tão pé no chão quanto foi a trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Nolan. Kal-El não é tratado como um super-herói ou um ser divino. O último filho de Krypton é visto como um alienígena que serve como resposta para a questão se estamos ou não sozinhos no universo. Apesar de uma boa ficção, a produção consegue se estabelecer com uma certa verossimilhança em sua trama, o que mostra o seu diferencial.

Sexta grande produção realizada em live action sobre herói com o selo da Warner Bros., “O Homem de Aço” se mostra equivalente ao que foi “Batman Begins” oito anos atrás, da trilogia citada acima. Uma história de origem que sem pressa evita tropeços antes de mostrar o seu protagonista adequadamente trajado com seu uniforme clássico. Porém, ao contrário do primeiro filme da trilogia do Cavaleiro das Trevas, em que os dois primeiros atos trazem a grande sacada de mostrar como Bruce Wayne se transforma em Batman e o começo de sua atuação em Gotham, para terminar com um último ato com o básico embate de mocinho contra bandido, em “O Homem de Aço” acontece o oposto. Atravessamos o começo e o meio do filme extremamente ansiosos, mas não apenas pelo que nos é mostrado de imediato, mas sim porque tudo o que aparece na tela fomenta a curiosidade pela primeira aparição de Clark Kent vestido como Superman e pelo clímax do filme e o inevitável embate entre o homem de aço e Zod.

Apesar de famoso em todos os cantos do mundo e ser o precursor de todos os super-heróis modernos, sendo o primeiro da chamada Era de Ouro das histórias em quadrinhos, Superman sempre foi um personagem que dividiu opiniões. Por ser praticamente indestrutível e ser um verdadeiro escoteiro ao representar os ideais do que é correto acima de tudo, sempre acabou sendo superior a qualquer outro super-herói, e é isso o que acaba por criar uma falta de simpatia de muita gente por ele. Afinal, ninguém gosta de alguém muito certinho. Acontece que no novo filme uma boa parte dessas características é moldada não de modo a favorecer o personagem, mas justamente o oposto. No filme de Zack Snyder é abordado o sacrifício do herói em fazer suas escolhas em nome do que é certo. Isso dá um senso de dramaticidade ao personagem que evidentemente sofre com muitas das escolhas que faz. É o preço que se paga por ser um caxias.

“It’s not an ass.” Não, péra!!!

Aproveitando o fato de ser um dos mais poderosos super-heróis de todos os tempos e também o mais popular deles, a tríade Snyder/Nolan/ Goyer resolveu não ficar jogando na cara do espectador cada habilidade do Superman e outros fatos já conhecidos de seu cânone. Economizando copiões resolveram mostrar enfim o que os bíceps de Kal-El podem fazer. Em uma mescla de “Transformers” com “Dragon Ball Z” e uma edição mais corrida do que o necessário, os cineastas entregaram cenas de lutas longas e intermináveis que acarretam na destruição de boa parte de Smallville e Metrópolis. A porradaria entre os kryptonianos atinge proporções catastróficas para nós, pobres humanos. Mas quem liga?! O que importa é que enfim o Superman virou homem (agora ele usa a cueca para dentro da calça)!

Falando em homem, dessa vez quem veste a capa vermelha do herói é o britânico Henry Cavill. A interpretação do ator é profunda e eficiente em transmitir o sentimento de solitude vivida pelo personagem e também a sua ira e dor ao emitir gritos que fazem dilatar todas as veias do pescoço. Se dá vontade de sair correndo de medo com os gritos de Hugh Jackman na pele de Wolverine e David Hayter na de Solid Snake, com os de Cavill é melhor sair voando, porque o rapaz se empolga mesmo! Dessa vez as fraquezas que fazem de Kel-El um humano são exploradas de modo significativo que resultam em ações explosivas do herói, e não nas lamentações entediantes de outras produções, tanto filmes como muitas de suas aventuras nas histórias em quadrinhos. Nas palavras do próprio Zack Snyder, “A inocência morreu.”

Batendo de frente com o herói está o clássico vilão General Zod, interpretado por Michael Shannon, extremamente brutal e impiedoso. Desta vez o personagem está menos diplomático e caricato, sem um figurino à la Seco & Molhados como o utilizado por Terence Stamp em “Superman II”. Ao lado de Zod está a bela atriz alemã Antje Traue como sua segunda em comando, Faora. As feições da atriz parecem saídas do traço da desenhista brasileira Adriana Melo, com linhas firmes de uma beleza clássica que se encaixaria muito bem em uma graphic novel. Ainda no time feminino está Amy Adams no papel da intrépida jornalista Lois Lane do Planeta Diário. Se Antje Traue tem os traços de um desenho de Adriana Melo, então Amy Adams tem os de uma das garotas de J. Scott Campbell, mas muito mais sutis e linda o bastante para fazer o sujeito na fileira atrás da minha durante a sessão soltar: “Meu Deus, que mulher!”, durante a primeira aparição da personagem no filme. A participação da repórter se mostra realmente relevante para o desenvolvimento da trama, deixando de ser uma personagem plana com a cabeça voltada apenas para seus furos de reportagem e se tornando uma personagem redonda (não, ela não ganhou peso para o papel). Agora Lois traz emoções e pensamentos menos gananciosos, pensando de modo geral nas situações pelas quais passa e nas consequências que suas ações podem trazer. Afinal ela já tem um Pulitzer, o que mais ela pode querer?

Kal-El indeciso entre Amy Adams e AntjeTraue

Completando o elenco temos Russel Crowe como Jor-El, dando seu show habitual de puro talento na pele do kryptoniano e pai biológico do Superman. Kevin Costner e Diane Lane fazem os pais adotivos do herói, Jonathan e Martha Kent. Ayelet Zurer faz a mãe biológica do home de aço, Lara Lor-Van; Laurence Fishburn interpreta o editor do Planeta Diarío, Perry White, e Christopher Meloni o coronel Nathan Hardy do exército americano.

Em termos estéticos “O Homem de Aço” se desvencilha totalmente dos filmes clássicos estrelados por Christopher Reeve e embalados pelo clássico tema composto por John Williams. A sociedade estatal de Krypton criada para este novo filme é bem desenvolvida nas telas, que também destaca a fauna e flora do planeta, nada mais de cristais brancos para lá e para cá. É uma roupagem totalmente nova, mas sem deixar de lado elementos básicos da mitologia do personagem e do universo DC Comics, como a inteligência artificial Kelex e referências a passagens e diálogos de quadrinhos cultuados do Superman, além de alguns easter eggs bem interessantes. Mas o conceito mais importante de “O Homem de Aço” é o significado do “S” que Superman ostenta em seu peito. Na verdade a letra é um símbolo que significa esperança. Cada família de Krypton tem seu próprio brasão e significado. Pode ser piração da minha cabeça, mas o brasão da família do general Zod é muito parecido com a foice da bandeira da antiga União Soviética. Só ficou faltando o martelo.

Um dos fatores que tornaram os filmes antigos do Superman inesquecíveis foi o tema principal escrito por John Williams. Dessa vez o cargo de escrever a nova trilha sonora ficou com Hans Zimmer, compositor da trilogia do Cavaleiro das Trevas, “A Origem” e a dobradinha de filmes de Sherlock Holmes estrelados por Robert Downey Jr. nos últimos anos. É triste dizer, mas a nova trilha não se compara nem com os trabalhos passado de Zimmer. Com quase duas horas de duração todas as composições são similares entre si, distantes e com cara de que vieram de outro planeta. Infelizmente nada digno de nota. Basta ouvir apenas o tema principal para se captar o sentimento de esperança que permeia o filme, mas esta tem que ser ouvida separadamente, porque durante o filme mal a percebemos.

Em suma “O Homem de Aço” é um verdadeiro filme de super-herói e claramente a melhor produção que já conseguiu adaptar o Superman para todos os públicos. Apesar das mudanças sofridas, não há com o que se preocupar, o último filho de Krypton ainda é o mesmo de quando surgiu nos anos 30. Agora só nos basta aguardar pela sequência e também pelo filme da Liga da Justiça. Zack Snyder já confirmou que voltará para a sequencia de “O Homem de Aço” que será novamente escrita por David Goyer, que também assinou para escrever o filme da Liga. Bom, por hoje chega de escrever!

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Trilha sonora

The Last of Us

O que é preciso para se fazer um grande game? Ao que parece, a Naughty Dog havia respondido a essa pergunta com a sua trilogia “Uncharted”. Partindo do princípio já estabelecido, a empresa virou o mesmo do avesso e desenvolveu “The Last of Us”, que acaba de chegar para o PlayStation 3.

A trama do novo game da desenvolvedora americana roda em torno do carpinteiro Joel, que vive com sua filha Sarah  próximo a Austin, no Texas. Pai solteiro que sonha em abrir seu próprio negócio, é na noite de seu aniversário que o inferno sobe à Terra; quando casos relatados de uma epidemia provinda de uma forma mutante de Cordyceps se espalha pelos Estados Unidos, atingindo o status de pandemia. A partir daí a história avança 20 anos no tempo.

Cordyceps é uma espécie de fungo. No caso do game, o nome deste Cordyceps é Ophiocordyceps unilateralis, que ataca apenas animais e passa a viver como neuroparasita, se espalhando pelos orgãos e consequentemente matando o hospedeiro. No game, o mesmo fungo é o responsável por toda a tragédia que acomete os EUA. Enquanto que sua versão no vida real não afeta seres humanos, na trama de “The Last of Us” uma versão mutante deste mesmo fungo torna as pessoas o seu principal alvo, a contaminação primária se dando através da inalação de esporos. O hospedeiro se torna uma espécie de zumbi, e como portador da doença também passa a espalhar o contágio através de mordidas. A ideia para o game veio após a equipe da Naughty Dog assistir um documentário sobre o Ophiocordyceps unilateralis na BBC.

“E aí, rola?”

Com o país do Tio Sam completamente devastado, o governo foi posto abaixo e os militares tomaram o poder, mantendo as pessoas em cidades usadas como zonas de quarentena e os infectados do lado de fora. Lutando contra essa ditadura militar está o grupo conhecido como os Vaga-lumes, que busca a reestruturação do governo. É neste futuro pós-pandêmico que um Joel envelhecido, taciturno e mais barbudo do que nunca toma a tela.

Agora Joel atua como contrabandista em Boston, onde passou a viver. Em uma destas transações de mercado negro, Joel e sua amiga Tess pagam por um grande número de armas. Acontece que a mercadoria é extraviada e os dois resolvem ir atrás do fornecedor e acabam descobrindo que as armas foram entregues aos Vaga-lumes. É nesta tentativa de reaver a mercadoria que o caminho de Joel cruza com o de Marlene, a líder dos rebeldes, que propôe um acordo a ele e a Tess: levar Ellie, uma jovem de 14 anos até um grupo de Vaga-lumes pronto para recebê-los no Congresso da cidade, e em troca eles teriam suas armas de volta. Relutantes, Joel e Tess aceitam o serviço. O motivo da entrega não importa, afinal a garota é apenas mais um trabalho.

Dois dos maiores fatores que fazem de “The Last of Us” um grande game são o roteiro de Neil Druckmann e a trilha sonora composta por Gustavo Santaolalla. Também atuando como diretor criativo do game, Druckmann concebeu um script excelente. Com uma trama linear, reintroduzindo os clássicos dissabores de parceiros que não se suportam à princípio, “The Last of Us” apresenta um roteiro tão sólido, que o que realmente sustenta o novo título da Naughty Dog é a relação gradativa de pai e filha que se desenvolve entre Joel e Ellie, pincelada de modo visceral (literalmente) por Druckmann. Claro que isso só é obtido através da performance dedicada de Troy Baker (“Metal Gear Solid V The Phantom Pain”) como Joel e Ashley Johnson (“Os Vingadores”) como Ellie, através do processo de motion capture.

Ashley Johnson (Ellie), Troy Baker (Joel), Neil Druckmann e Annie Wersching (Tess)

Já a trilha do argentino Santaolalla pode facilmente ser comparada ao mar, não sabendo onde começa ou termina, mas o sentindo a cada nova onda; você pode tentar pular, mas nunca sabe para onde elas vão te levar. Isso tudo com um quê de música clássica e algumas batucadas. O maestro já compôs para grandes sucessos do cinema, tais como “O Segredo de Brokeback Muntain” (2005), pelo qual ganhou o Oscar de melhor trilha original, e para a Trilogia da Morte do premiado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. “O Informante” (1999), “Diários de Motocicleta” (2004), “Na Natureza Selvagem” (2007) e “Biutiful” (2010) também tiveram suas trilhas compostas por Santaolalla.

Mas “The Last of Us” não é um filme, e não pode ser avaliado somente por um bom roteiro e trilha sonora espirituosa! E quanto ao gameplay? Ao contrário das acrobacias de Nathan Drake e seus golpes desvairados que representavam o suprassumo da aventura, em “The Last of Us” o principal objetivo é representar a mais pura tensão. Sendo assim, os movimentos de Joel e Ellie são mais limitados, com a câmera acompanhando os protagonistas da cintura para cima. Com este plano de câmera devidamente centrado no jogador, a tensão do que pode acontecer ao redor se torna muito maior. Enquanto a câmera se torna um tanto quanto restrita, a liberdade cresce no quesito de customização de armas. Joel pode melhorar suas pistolas, revólveres, espingardas, rifles e até um arco e flecha. Mas o arsenal do jogador não se resume a essas armas básicas. Em “The Last of Us” Joel pode montar bombas de pregos, facas e coquetéis molotov. O interessante é que os mesmos ingressos que formam os molotovs, por exemplo, também podem ser usados para preparar curativos; a escolha ficando inteiramente nas mãos do jogador que pode e será, constantemente, pego em situações inesperadas.

 O game não apresenta mais de um caminho para que se chegue ao seu final, porém a Naughty Dog criou vastos cenários que podem ser explorados antes que o caminho a se seguir seja encontrado. E acredite, revirar cada centímetro dos ambientes é mais do que necessário, é algo vital. As balas e itens são escaços, principalmente no modo “sobrevivente”. A fala “Faça cada bala contar”, repetida constantemente no jogo não deve nunca sair da mente do jogador.

Aqui se faz…

O game também traz um nível alto de violência, com uma quantidade de sangue de fazer inveja a Quentin Tarantino, mas menos estilizada. Tiros de espingarda que arrebentam cabeças, granadas que destroçam corpos inteiros, golpes de tijolos, canos de ferro, facadas, a coisa é gore mesmo! Tanta groselha e violência fazem parte dos gráficos espetaculares de “The Last of Us”, que apresenta sem a menor sombra de dúvida, uma das representação mais realista desta sétima geração de consoles. A odisseia de Joel e Ellie atinge um grau incomparável de realismo, dando uma grande atenção a todos os detalhes de ambiente, roupas e feições. O perfeccionismo empregado é tanto que nas cenas de combate corpo a corpo, onde Joel ataca seus inimigos com as armas brancas já citadas, ou até mesmo esfarelando suas mãos no queixo de um infectado qualquer, a tensão que é transmitida faz a adrenalina do jogador explodir dentro do organismo tão feroz quanto o vírus que assola o universo do game. Nem em títulos de guerra como “Call of Duty” e “Battlefield” que costumam apresentar um visual sem precedentes, são capazes de fazer as pontas dos dedos formigarem com tanta tensão como “The Last of Us” é capaz de fazer.

…aqui se paga

Sendo um dos últimos títulos a ser lançado para o PlayStation 3 antes da chegada do seu sucessor no final do ano, “The Last of Us” se consolida como um marco dos videogames. Não apenas por ser um dos games mais bem acabados desta geração, mas também por deixar evidente a atenção que a industria de jogos eletrônicos está dando ao Brasil. Exemplo disso é a dublagem em português do Brasil que “The Last of Us” traz, encabeçada pelo dublador veterano Luiz Carlos Persy que faz a voz de Joel e estabelece o tom do game em sua versão brasuca, causando inveja no áudio original inglês. No currículo do brasileiro estão Lord Voldemort dos filmes de “Harry Potter” e Marte de “Os Cavaleiros do Zodíaco”.

Em suma, o novo game da Naughty Dog redefine o gênero survival horror tão bem quanto “Resident Evil” fez quando foi lançado para o PlayStation em 1996. O Novo título também prova que a Naughty Dog pode ir fundo e entregar jogos menos “Sessão da Tarde” ao seus seguidores. “The Last of Us” simplesmente não pode faltar na coleção dos gamers mais hardcore.

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Trilha sonora

Jack o Caçador de Gigantes

Era uma vez um reino muito, muito distante, onde todos os sonhos eram possíveis. O nome deste lugar cheio de magia era Hollywood. Formado pelos poderes dos grandes estúdios de cinema que financiam os sonhos das pessoas ao redor do mundo, Hollywood vinha passando nos últimos anos, por um processo de bloqueio criativo. Foi então que os estúdios resolveram adaptar para as telas romances adolescentes, HQs, games e recentemente, contos de fadas. O mais novo blockbuster desta lista é “Jack o Caçador de Gigantes”.

Dirigido por Bryan Singer, o filme conta a história do jovem fazendeiro Jack, vivido por Nicholas Hoult. Certo dia, o tio de Jack o manda ao reino de Cloister para vender seu cavalo e sua carroça, na esperança de conseguir dinheiro suficiente para consertar o telhado. Eis que durante a estadia do rapaz, ele acaba se tornando o proprietário de uma porção de feijões mágicos, e é alertado para que jamais os molhe. Bom, como o próprio tio do rapaz costuma dizer, Jack nunca foi muito atento aos detalhes.

Em um minuto, um gigantesco pé de feijão se eleva até as nuvens, levando até a terra dos gigantes que há muito já haviam se tornado apenas lendas para os homens. Para piorar a situação, a jovem princesa de Cloister, Isabelle (Eleanor Tomlinson), é levada para aquela terra de horrores. É aí que Jack percebe que as histórias que seu pai lhe contava na infância eram verdadeiras. Destemido, o jovem fazendeiro tem de provar o seu valor tanto para conquistar a princesa, quanto para salvar toda a terra dos homens da ira dos gigantes sedentos por vingança. O resto, bom, o resto é lenda.

O filme se baseia em dois contos de fada, “João e o Pé de Feijão” e “Jack o Matador de Gigantes”, este menos conhecido. Misturando ambas as histórias, o roteiro que foi concebido em 2005 por Darren Lemke e revisado por Christopher McQuarrie e Dan Studney após a entrada de Singer no projeto, é sutil e desfaz o preconceito contra as recentes deturpações de contos de fadas para as telonas. Ágil, o roteiro é o maior trunfo da produção, que dá ao filme uma linha narrativa inteligente que não se trai em busca por continuações ou por transformar a história em algo real demais. Deste modo, passa a ininterrupta impressão de que estamos na verdade presenciando a origem de uma história fascinante que percorreria os séculos até o leito de milhões de crianças ao redor do mundo.

Esteticamente, “Jack o Caçador de Gigantes” também surpreende. Não dá para saber ao certo se o filme tenta ser uma obra de pura aventura ao estilo Indiana Jones, ou algo voltado para o público infantil, o que acaba por fundir um visual cheio de brilho aos fatores primordiais para um bom filme onde o herói sempre triunfa no final. Com um bom equilíbrio visual, os gigantes são pavorosos, mas não chegam a serem orcs demoníacos. Destaque para o gigante de duas cabeças, Fallon, interpretado por Bill Nighy e John Kassir. Também vale ressaltar a mais nova peruca de mal gosto de Stanley Tucci e o topete estilizado de Ewan McGregor, além do figurino de Ian McShane como o rei de Cloister, muito similar à armadura de ouro de Sagitário de “Os Cavaleiros do Zodíaco”.

“Você é grande mas não é dois! Não, péra…”

Sob a batuta de Singer, o filme não entra na onda de querer ser uma versão dark ou adulta ou real, ou seja lá o nome que os figurões de Hollywood usam constantemente para descrever suas produções hoje em dia. O filme cumpre seu objetivo de mergulhar o espectador na mais pura fantasia sem transformá-la em um draminha barato. E assim, no fundo da fantasia, todos viveram felizes para sempre. Mas cuidado, não vá regar demais.

Tomb Raider

Nada mais apropriado que o lançamento nacional de “Tomb Raider” ocorrer justamente no Dia Internacional da Mulher. A maior personagem feminina dos games, Lara Croft, está de volta completamente reformulada depois de um período de três anos sem dar as caras. A questão é: será que a heroína ainda é capaz de honrar o título de “musa dos games”? É o que vamos descobrir.

Este novo capítulo da série “Tomb Raider” não é apenas mais um game no universo da destemida arqueóloga, é também um recomeço para toda a franquia. Depois de tantos games travadões e sem a profundidade emocional necessária para carregar suas histórias, Lara Croft já não era mais o que se propusera a ser quando surgiu em meados dos anos 90. O maior fator para esta revolução no mundinho de Lady Croft foi o surgimento de Nathan Drake e o seu bem humorado e desenvolvido, “Uncharted”. O concorrente era visivelmente baseado nos próprios games de “Tomb Raider”, mas, sem me ater a  meias palavras, infinitamente melhor.

Anunciado no final de 2010, o novo game simplesmente batizado de “Tomb Raider”, visa desconstruir tudo o que se conhecia até então sobre Lara Croft. A premissa é abordar a jovem em sua primeira aventura e mostrar como a Condessa de Abbington, herdeira da fortuna de Richard e Amelia Croft, se tornou a maior caçadora de tumbas da ficção.

O game começa com Lara a bordo do navio Endurance em uma expedição para encontrar o lendário reino de Yamatai, governado pela figura da deusa do sol, Himiko. Com 21 anos e ansiosa para deixar sua marca na história, é quando o Endurance naufraga nas misteriosas águas do Mar do Diabo, que Lara (Camilla Luddington) põe pela primeira vez os pés na lenda que ela mesma viria a se tornar. O jogador tem de lidar com uma garota inocente, que nunca na vida sequer chegou a imaginar que um dia passaria pelos terrores que viveria na inóspita ilha japonesa.

Camilla Luddington

Na busca pela própria sobrevivência e de seus companheiros, Lara tem de percorrer cerca de 15 horas de gameplay passando por russos barbudos e nativos hiperativos armados com espingardas, bananas de dinamite e arco e flecha. Quando as balas estão chegando ao fim, a censura não é um problema; pedradas, ataques de machado e a última bala do pente disparada a queima-roupa direto na cabeça do inimigo durante um close de câmara, não devem ser muito agradáveis de se ver para os gamers mais açucarados. Entre neve e chuva, muita chuva mesmo, Lara tem de percorrer toda a extensão da ilha passando por rituais macabros, templos de impecável arquitetura japonesa e samurais de pedra. A trama do game está diretamente ligada ao mistério de navios e aviões desaparecerem no Mar do Diabo.

Escrito por Rhianna Pratchett, o game vem com um roteiro impecável repleto de situações que fazem compreensível o amadurecimento emocional da protagonista. A cada pancada ou até mesmo a tentativa de estupro, ou ver as pessoas pelas quais se luta morrerem diante de seus olhos, mais as referências sutis aos games antigos da franquia, são a combinação sem par entre um excelente script e uma equipe de desenvolvedores igualmente exemplar. Tudo isso e muito mais é o novo “Tomb Raider”. Se não controlássemos Lara, o game poderia ser visto perfeitamente como um filme. Simplesmente não existem loadings no decorrer da trama e os planos de câmera são ágeis e em nada lembram outros games. Em outras palavras, prepare-se para o imprevisível, por mais contraditório que seja dizer  (escrever) isso.

Em se tratando de gameplay, o novo “Tomb Raider” é uma mistura de “Uncharted” com a dobradinha dos games “Batman Arkham”. O mix resultou em um dos melhores games do gênero exploração/aventura já feitos, e é de longe a melhor das aventuras já protagonizadas por Lara Croft. Os movimentos da jovem arqueóloga são uma reprodução dos de Nathan Drake, como os pulos exagerados e os pequenos movimentos orgânicos que a personagem faz, como correr os dedos por uma parede ao se aproximar dela, além do sistema de seleção de armas similar ao do aventureiro topetudo. Não que isso seja ruim, na verdade é muito justo, afinal como já foi dito, “Uncharted” é claramente inspirado nos games anterior de “Tomb Raider”. Já o sistema de cobertura é autêntico e muito natural. Ao se aproximar de uma quina de parede, por exemplo, Lara se abaixa em paralelo, sem se encostar totalmente. Quando próxima do perigo, ela passa a andar com os joelhos curvados, já que não existe um botão para se abaixar no game. Isso é muito útil, pois nos deixa alertas sobre algum perigo próximo só detectado por Lara.

Já do homem-morcego o jogo pegou emprestado o sistema de navegação. Um mundo aberto incrivelmente vasto, cheio de passagens secretas que pode ser explorado a qualquer momento da jogatina. Nada frustrante como costumava ser esse tipo de coisa nos games passados de Lara. Basta selecionar a relíquia ou tumba desejada no mapa e seguir uma espécie de “batsinal”, ativado pelo L2, que põe para funcionar o “modo de sobrevivente”, como se fosse a visão de detetive dos títulos do Cavaleiro das Trevas. Outra característica que os programadores da Crystal Dynamics foram buscar em Gotham City é o sistema de melhoria de habilidade e de equipamentos. Simples: junte pontos de experiência e melhore suas armas. Inclusive, muitas das bugigangas improvisadas que Lara usa são semelhantes as usadas pelo morcegão, como a Grapnel Gun e o Arpéu Avançado. Algumas coisas, porém, seriam inacreditáveis  até para o vigilante de Gotham, mas não para Lady Croft, como transformar uma Type 100 da Segunda Guerra Mundial em uma AK 47 com uns pedaços de metal e madeira.

Com gráficos bem trabalhados, apesar dos cabelos sem movimentação e os rostos sem muita expressão, “Tomb Raider” traz um incrível nível de detalhe nos ambientes e alterações climáticas. Ver o sol nascer após sair de uma caverna não tem preço (R$170,00). A cada machucado, o dano no corpo da heroína e em suas roupas é permanente. Se rastejar por um córrego de sangue enquanto afasta corpos em plena decomposição é incrivelmente belo de se ver. Só com muita chuva pra retirar todo esse ketchup.

Não chora não

A resposta à pergunta feita no começo deste texto é “sim”. Lara Croft ainda é a musa dos videogames. O título agora é tão relevante quanto jamais foi. O novo “Tomb Raider” não é apenas mais um game, é “O” game. E como não podia deixar de ser, Lara Croft prova toda a bravura do seu ser feminino neste Dia Internacional da Mulher. Presentão para as gamers. Gradativamente, o espírito de sobrevivente de Lara passa a aflorar dos seus machucados, cortes e arranhões, irrompendo pela pele rasgada até transformar a menina em mulher; a sobrevivente em guerreira; o nome em lenda.

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Retrospectiva “Tomb Raider”

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Descubra em 5 motivos porque Kelly Brook deve ser a nova “Tomb Raider”

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