Vale dos Esquecidos

O calor não importava mais. O crepitar incessante das altas chamas não podia mais ser ouvido. As línguas de fogo havia vaporizado todo e qualquer tipo de vida existente. E junto estava matando seu espírito. Pois é, bem piegas mesmo, mas é a realidade e é disso que o documentário Vale dos Esquecidos da iniciante Maria Raduan retrata. Não especificamente de queimadas mas sim da morte do espírito da nossa terra que há mais de 40 anos vem sendo palco de uma batalha interminável entre índios, fazendeiros, sem terras e posseiros no estado do Mato Grosso do Sul.

Com o tamanho equivalente a nada mais nada menos do que 252 ilhas de Manhattan, a chamada Fazenda Suía-Missú foi fundada lá nos anos 70 por um grupo empresarial chamdao SUDAM que forneceu a quantia estimada de US$30 milhões para Funai, que na época atendia pelo nome SPI, isso apenas depois que a fundação que representa os direitos dos remanescentes indígenas no país afirmar à SUDAM que na área não existia nenhum índio. Consequentemente com a chegada dos novos moradosres os caras-vermelhas foram literalmente postos para correr na base da bala!

Em Vale dos Esquecidos a cineasta não fez apenas um relato da guerra, ela poetizou toda a matança e tragédia infindável de décadas, o que aumentou ainda mais a dramaticidade dos eventos que nos nossos dias atuais onde até a vida se tornou algo tão banal, a possibilidade de se chocar voltou a ser algo possível e menos maquinal do nosso cotidiano cibernético de passatempos vis. A descoberta de algo real e palpável como a injustiça, morte e sangue, tudo caído sobre a terra como adubo faz o cérebro pegar nem que seja no tranco. E se engana quem pensa que Maria Raduan focou-se somente nos índios, a cineasta ouviu todos os lados dessa guerra para mostrar preto no branco e no vermelho a real situação enfrentada por essas pessoas sem paz.

Porém o relato dessa realidade também conta com o corte de Jordana Berg e a fotografia de Sylvestre Camp que nos deleitam com o cenário cálido e árido; verde e azul do Mato Grosso, com suas texturas e a distância infinita que parece haver de lá para cá. É o arco sem fim de um caos enraizado na pele e na terra, um arco de um lugar não esquecido por Deus mas sim pelo sempre, ou quase sempre, governo e seus bolsões cheios de omissão.

O documentário que parece ainda passar batido para os menos interessados ou menos afinados com o circuito, já participou de festivais em Chicago e Canadá. O descaso dos grandes interesseiros midiáticos, dos passatempos vis, de nós mesmos, apagam a verdade que nem chegamos a saber sobre o terror de nosso próprio solo.

Trailer

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Publicado em 4 de maio de 2012, em CRÍTICA - FILMES e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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