As Flores de Kirkuk

Filmes como As Flores de Kirkuk não são alardeados por aí e levam milhões de espectadores ao cinema depois que estreiam. Não. Filmes desse gênero passam batidos, fora do circuito convencional de pipocões milhonários. Porém quando deitamos os olhos sobre filmes assim, diferentes, que quebram o encanto, a fórmula costumeira da maioria dos filmes, nos sentimos despertos, como se emergíssemos para algo novo, que no caso de As Flores de Kirkuk conta algo pouco lembrado por alguns e nem sequer conhecidos por muitos.

O filme começa pelo fim, pelo fim de uma era. A abertura com a imagem da estátua de ferro do ditador Saddam Husseim sendo posta abaixo que rodou os quatro cantos do mundo quase 10 anos atrás aqui serve para acender o estopim do românce político dirigido por Fariborz Kamkari, e logo de cara já fica evidente que nada muito feliz vai se desenrolará na tela.

Com elementos saídos direto de uma das obras mais famosas de William Shakespeare, As Flores de Kirkuk é uma versão do clássico de romance e tragédia Romeu e Julieta mesclado com o massacre do povo curdo que se deu entre 1986 e 1989 no Iraque submisso e sangrento de Satã, opa, Saddam Husseim. Nesse período Iraque e Estados Unidos eram aliados em uma espécie de os “fins justificam os meios”, e o objetivo final era petróleo.

Porém o líquido que corre pelas imperfeições do árido cenário que enfeita e cria a atmosfera de solidão e opressão do filme não é negro mas sim vermelho, é o sangue de cerca de 200 mil vítimas da massacre no Curjistão, ao norte do Iraque, onde a pau mandada ONU que em tudo mete o bedelho resolveu se abster de intervir, provavelmente para não prejudicar a amizade colorida de seu dono com o Iraque.

Agora, concentrando-nos no universo de Kamkaria, vemos na película filmada em 2010 o romance de Naija (Morjala Alaoui) e Sherko (Ertem Eser), um casal de médicos iranianos que foram educadoa na Itália. A relação parece ter chegado ao fim quando Sherko volta para seu país de origem em visita a família e pede para Naija que ela o esqueça, porém a jovem, determinada, vai atrás de seu amor, mas quando chega ao país tem de enfrentar costumes opressores e famílias contoladoras que são contra o romance do jovem casal. Em meio ao turbilhão mil vezes mais grandioso que aqui se torna a obra de Shakespeare onde as duas famílias rivais passam a ser nações apositoras, Naija aceita se tornar noiva de um outro homem para salvar Sherko.

Noiva de Mokhtar (Mohammed Bakri) que integra as forças iraquianas, Naija parte com o noivo para a zona de conflito onde abre uma clínica clandestina em meio ao terror e violência sem limites da matança generalizada. Mokhtar porém se mostra tão latente quanto qualquer ser humano, reconhecendo mesmo que internamente o horror de seus atos apesar de executá-los em nome de seus superiores emissários da morte. Como uma espécie de compensação para aliviar sua conciência culpada passa a por as vontade da noiva acima das suas próprias.

Em meio ao cheiro de morte e pólvora queimada Naija tem de enfrentar conflitos internos e externos onde sabe que irá pagar caro por sua ousadia de mulher ocidental que se contrapõe em um mundo restrito regido pela batuta fálica de demônios tranvestidos de homens.

As Flores de Kirkuk é uma obra de arte onde cada pincelada é algo original que foge do costumeiro caminho de migalhas de pão do cinema ocidental. Com tons pasteis, Fariborz Kamkari faz sua obra tranbordar da tela com um ritmo agitado que percorre as imperfeições do Iraque dos anos 80 (não que muita coisa tenha melhorada de lá para cá). Os atores desempenham maravilhosamente bem seus papeis, principalmente a protagonista Morjana Alaoui, doce como uma Julieta e audaz como uma Joana d’Arc. Já o título tão romântico realmente faz alusão as flores de Kirkuk, que são flores que nascem na região onde se deu o massacre resistinto as condições naturais mais vorazes, como a vida em si que sempre encontra como se manter de pé mesmo sob a lâmina fria do mais cruel carrasco.

Trailer

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Publicado em 28 de março de 2012, em CRÍTICA - FILMES e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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