Um Relato do Passado

O texto que se segue não possui qualquer caráter informativo como os que são publicados corriqueiramente nesse blog. Seu caráter é puramente literário e é a transposição em palavras de uma história verídica.


Um Relato do Passado

Muitos haviam vindo antes dele. Muitos que nem sabiam que um dia ele existiria assim como ele não sabia quantos haviam existido antes dele. Na verdade a pequena figura confortavelmente aninhada nos braços de sua mãe não sabia de coisa alguma.

Era quase final de tarde e o sol já começava a assumir aquela aparência de uma meia gema dourada e quase líquida que se derramava por trás do horizonte irregular de edifícios tingindo as nuvens com nuances de laranja e violeta. Os sons da cidade começavam a aumentar com os carros que se espremiam nas ruas e avenidas e se punham a zurrar como burros empacados com suas buzinas irritantes.

Longe do acumulo de poluição de monóxido de carbono liberado pelos escapamentos dos carros e longe da tensão quase irracional que inevitavelmente em algum momento toma conta do corpo dos motoristas e dos transeuntes que se preparam para regressar de seus ofícios a progenitora de nosso protagonista descansava em seu leito na maternidade com sua cria adormecida sobre seu peito.

O quarto estava mergulhado totalmente no silêncio e na tranquilidade como se mãe, filho e quarto estivessem em um universo próprio. Através das persianas parcialmente cerradas da janela o brilho cálido do sol se arrastava lentamente pelas cobertas da cama. A mãe esperou pacientemente até que a camada de luz tocasse o rosto de seu filho. Minutos atrás quando o pequeno dormia na sala do berçário entre inúmeros outros bebês, ele era apenas mais um, como um soldado raso em um batalhão. Mas agora que estava nos braços de sua mãe, suas feições delicadas emolduradas pelos raios lânguidos do sol ele era sem dúvida o seu maior feito.

O menino cresceu forte e saudável na casa que fora construída décadas antes por seu bisavô materno quando o bairro, hoje um dos mais abastados da cidade ainda era conjunto de terrenos lamacentos com um córrego serpenteante.

A fámilia do menino era unida e a vida do garoto sempre fora um sonho. Nada nunca lhe faltou e ele era uma criança amorosa e gentil que dizia querer ser Papa, pelo menos para as irmãs do colégio de freiras carmelitas onde estudou desde quando ainda era um imberbe.

Fora nos primeiros anos da adolescência que o já então rapazinho provou dos gostos de emoções diversas. Experimentou o mais ácido e amardo dos desabores em um período de quase seis meses. Primeiro foi a mudança. Nova casa, novos vizinhos, novas lembranças. Depois a perda do tio, daquele que desde sempre fora o seu herói, o seu cavaleiro de armadura brilhante, o seu raio de luz na escuridão.

A seguinte lembrança jamais se apagou da mente do garoto que de certo modo beirara as raízes da premonição e profetizara a morte do seu próprio São Jorge, a queda so seu matador de dragões. Foram três dias ininterruptos de lágrimas que não cessavam, dor e muita oração ao Criador. O garoto inconsolável e de certa maneira sentindo-se culpado por ter falhado em proteger da morte o tio fitou pela última vez a face deste pela abertura do esquife envernizado. Os olhos estavam fechados, algodão saltava das narinas e o rosto estava macilento. Havia barba que não mais cresceria, uma boca que nunca mais sorriria quanto mais falar e olhos castanhos que jamais voltariam a brilhar para o sobrinho desolado, destruído. O tio elegantemente trajado nunca mais estaria a seu lado, pelo menos não materialmente mas ele ainda podia ouvir distante a voz do seu adulto favorito e lutava para que a voz não se afastasse mais e mais. Seria outra derrota se isso acontecesse, seria sim, a vitória, mas do esquecimento.

Sentiu também a emoção antes do primeiro beijo e a sensação de vitória que consome a alma depois dele. Haviam sido novas experiências, as necessárias para que a infância singela ficasse para trás.

Quando a vida voltara a sua calmaria habitual o destino atacou novamente. A tão antiga e bem conceituada instituição de ensino onde o garoto sempre estudara entrou em processo de venda. Foi como ver um bando de galinhas doidas correndo sem rumo momentos antes de uma tempestade. Muitas pessoas tomaram rumos diferentes do que previam inclusive nosso protagonista. Sua mãe, a melhor do mundo que sacrificara muito pelo filho decidiu sacrificar ainda mais. A dor seria devastadora para ambos mas assim ela o fez. Mandou o filho para o interior para a casa de sua irmã viúva de fazendeiro e com um filho de mesma idade.

Era uma nova mudança. Amigos, fantasias, sonhos perdidos. Na cidadela distante onde o rapaz costumava passar suas férias escolares seria agora o seu novo mundo. Pessoas com quem convivera por curtos períodos de tempo seriam seus novos companheiros. E houve a surpresa. Nos anos seguintes o rapaz, agora um quase homem tivera o seu primeiro amor e usa primeira desilusão amorosa. Outra lembrança amarga e perpétua. Houve um segundo amor que vingara mas que jamais fora tão poderoso quanto o primeiro. E o mais importante: amigos. Amigos verdadeiros. Tornou-se um dos mais queridos do colégio e acumulou boas lembranças.

Depois de uma última noite regada à fermentados e destilados e perfumada de feromônios onde ele fora rei e falara do alto para todos este mundo também acabou. Indeciso se regressava para a cidade grande o rapaz sentia medo. Simplesmente não sabia o que fazer. Estava perdendo tudo: as horas plantado sob a chuva com um buquê de rosas nas mãos, o ato heróico no Museu da Língua Brasileira, os matrimônios encenados, as horas de convívio com os colegas e os anos de conhecimento estavam simplesmente desaparecendo como se estivessem sendo apagados do tempo.

O ano que se seguiu foi de reclusão e depressão profunda. Desejos estranhos e saltos interrompidos no penhasco da loucura. Mas como tudo com excessão da morte que não possui solução este não seria o fim da tragetória do rapaz, apenas o fim quase insuportável, uma última provação para o início de uma nova etapa. Os raios da alvorada voltariam a brilhar. O seu cavaleiro de armadura brilhante e matador de dragões viria salvá-lo.

Mais um ano se passara e o agora homem estava sentindo-se bem consigo mesmo. Danificado ele havia ressurgido. Conquistara novas pessoas para ter a seu lado mas sem substituir jamais as de seu passado. Tinha também, ele percebeu, o resto de uma longa história de vida ainda com muito por escrever.

Este texto também pode ser encontrado no seguinte endereço:

http://ppdegarota.blogspot.com/2011/03/um-relato-do-passado.html

Vale a pena conferir todo o material do blog.

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Publicado em 17 de março de 2011, em QUALQUER ASSUNTO e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Joseph Francis Wall

    Uma grande história, um grande texto e uma grande pessoa!

    Já há DEEEEZZZ (9) anos que nos conhecemos e, como era de se esperar, não houve meios de não me comover com as passagens saudosas, algumas das quais fui espectador. Como já afirmei uma vez, revelou de modo surpreendementente profundo os eventos aos quais, senão na subjetividade, tornam-se banais no dia-a-dia, diante da acre vida e da conformação que temos aos sentimentos espinhosos e áridos. Revelou o que é ser “ser humano”, o que é ser bem e mal, não dual, mas dialético. Revelou o que, enfim, chamamos de crescimento: alavanca, mas, como tal, traumatiza.

    Comoção há e felicidade também.

    Um grande abraço, amigo Pombo!

    J.H.Z.

  2. Fatima R. Rodrigues

    Simplesmente maravilhoso! Gostoso de ler, agradável e muito bem escrito! Parabéns ao escritor! Precisamos de mais textos assim para ler!

  3. Obrigado pelos elogios, gente. Preciso agora é de uma editora para publicar meus outros escritos e este também!!

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