Espadas Voadoras

Nunca um título serviu tão bem a um filme. “Espadas Voadoras”, do chinês Tsui Hark chega apelando para as fantasias reprimidas de quem é fã de filmes como “Matrix” e “O Tigre e o Dragão” e suas lutas coreografadas que desafiam as leis da física.

Durante a dinastia Ming, bandidos e mercenários entram em conflito na tentativa de descobrir a localização de um templo que guarda um enorme tesouro. De acordo com a lenda, a cada 60 anos tal templo se ergue do mar de areia por apenas duas horas. É nesse curto período de templo que os rivais tem de decidir entre a vida, a morte e a riqueza.

Estrelado por Jet Li, o longa traz um show magistral de coreografias de lutas, saltos e muitos efeitos especiais. Com cenários grandiosos, figurinos impecáveis e uma fotografia ambiciosa, “Espadas Voadoras” é visualmente inesquecível. Todo o trunfo, porém, se mantém nos aspectos já citados. No quesito roteiro, o filme de Hark é um fiasco. Com tramas que são simplesmente esquecidas e substituídas por outras e uma quantidade incrivelmente desnecessária de personagens, o filme se torna confuso e a atenção se volta apenas para a parte estética da película. Em determinado momento, não será surpresa se questionar sobre qual é a verdadeira trama do filme.

Com um ritmo veloz quando necessário, por muitas vezes o filme acaba tomando o rumo oposto e se torna enfadonho. Isso porque a narrativa de cenas de lutas constante e diálogos tão afiados quanto as espadas que permeiam a produção, vez ou outra se tornam sequencias lentas cheias de falas imponentes mas quase que completamente desnecessárias. Personagens são esquecidos por cerca de 30 minutos antes de voltar à baila, deixando morrer a chama do entusiasmo, que precisa se reacesa com novas cenas de luta.

A produção é uma grande fonte de prazer para quem gosta do mais completo exagero. Sem um rumo certo a seguir, “Espadas Voadoras” acerta em cheio em suprir a necessidade dos fãs de filmes megalomaníacos e de artes marciais.

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Nuts

Produções francesas são sempre sinônimo de filmes cult que trazem uma concepção esclarecedora sobre algum assunto. Sendo assim, “NUTS”, longa estrelado por Éric Elmosnini, Sophie Quinton e Valeria Golino se propõe a mostrar a relação de um paciente psiquiátrico com sua família após ter recebido alta.

O filme acompanha François que acabou de deixar a clínica em que estava internado. Sem emprego ou ter onde morar, François tem apenas um objetivo em sua vida: reconquistar a ex-mulher, Anna. Para isso ele tem de provar não apenas para ela, mas também para sua mãe, seu pai e sua psiquiatra que está curado.

O filme de Yann Coridian se dispõe a mostrar uma história interessante, não original, mas factual. Porém o tempo é curto demais ou o diretor se estendeu com personagens e situações descartáveis com o intuito de mostrar o quão profundo pensou ter desenvolvido o pobre François. Figuras aleatórias aparecem na vida do protagonista como se o espectador tivesse a obrigação de saber quem são. E Quando vão embora, ainda não sabemos de quem se trata.

A impressão que se tem é que Coridian cronometrou errado suas filmagens e só se deu conta disso no último ato do filme, que se torna rápido, não em montagem ou ritmo, mas em concepção. Com uma ideia que não faz sentido sequer para François, o filme acaba, não porque encontrou o seu final, mas talvez porque os rolos de filmes dentro das câmeras tenham acabado

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Pelada, Futebol na Favela

Depois da breve apresentação do diretor Alex Miranda, que fez com que a criançada que protagoniza seu documentário se aquietasse em suas poltronas, é com a bola no pé que o documentário “Pelada, Futebol na Favela” entra em cena.

A produção acompanha o sonho de garotos de uma favela que almejam se tornar jogadores de futebol profissionais. Além dos relatos tocantes dos meninos, o documentário também conta com a presença de craques como Ronaldo Fenômeno, Neymar, Emerson Sheik, Vampeta, Luis Fabiano e Serginho Chulapa, além de entrevistas com comentaristas esportivos como Juarez Soares, Neto e Silvio Luiz. Enquanto contam suas experiências antes e depois da fama, os jogadores e especialistas destacam as diferenças entre a boa e velha pelada praticada nos campos de areia ou no asfalto, com o futebol de escolinhas e o esporte dentro dos estádios.

Embalado por uma trilha composta por funk, samba e rap, “Pelada, Futebol na Favela” não conta nada de novo em sua uma hora e quarenta minutos de duração. A impressão que se tem é a de estar assistindo um quadro dramático de um programa dominical, só que três vezes maior. O documentário apresenta fatos há muito conhecidos, e no máximo tenta se aprofundar em uma ou duas histórias, como a de Tonico, um senhor de idade que foi um grande goleiro da comunidade em que vive, porém quando parece que a história vai esquentar, a câmera volta mais uma vez para os relatos de algum jogador de renome que enfeita a produção.

O ritmo do documentário é muito bom, estilizado e com uma montagem ágil, traz uma câmera nervosa que percorre todos os cantos da comunidade na qual foram rodadas as entrevistas com os garotos. O problema são as informações batidas; e os momentos mais tocantes são ver um ou outro relato dos garotos que sonham se tornar grandes astros do futebol para melhorar a vida de suas famílias. Acontece que para se obter tal depoimento não era preciso uma produção inteira voltada para o futebol, onde as informações andam em círculos, sempre se repetindo.

Infelizmente “Pelada, Futebol na Favela” fica sem fôlego muito rápido e bate na trave. O documentário se torna, na verdade, um excelente remédio para quem anda com o sono atrasado ou sofre com insônia. É uma produção voltada apenas paras os verdadeiros fanáticos do esporte, que não se incomodam em ser apresentados aos mesmos fatos incontáveis vezes.

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O Fantástico Mundo de Juan Orol

Poucos já devem ter ouvido o nome Juan Orol. Pois bem, para quem não sabe, este foi um ícone do cinema B mexicano à partir dos anos 30, a época de ouro do cinema mexicano e responsável pelo gênero “gangster tropical”. Na película “O Fantástico Mundo de Juan Orol”, assinada por Sebastian del Amo, temos uma cinebiografia deste cineasta que nos é mostrada de um modo incrivelmente peculiar, tão surrealista quanto os próprios filmes de Orol.

Entre Espanha, Cuba e México, Orol foi jogador de beisebol, piloto de corrida e espião antes de finalmente entrar para o mundo do cinema. Sem saber nada sobre técnicas de filmagem, o diretor, roteirista, produtor e ator criou seu próprio nome, vivendo uma vida de excessos digna de uma de suas produções.

Estrelado por Roberto Sosa, “O Fantástico Mundo de Juan Orol” mistura ficção e realidade onde Orol, desde jovem tem a companhia imaginária de Johnny Carmenta, seu personagem mais icônico. Contado de modo exagerado como se fosse um dos próprios filmes de gangsteres de Orol, o filme se passa em preto e branco até o quarto casamento deste, quando resolve filmar em Technicolor, e a partir dái a cinebiografia também se torna à cores. Desde o início a produção poderia ser uma história ficcional devido a seu estilo, fotografia, montagem e roteiro. Mas não é, e isso que a torna ainda mais excitante.

Com atuações exageradas, del Amo brinca com os próprios clichês do mundo do cinema, como as atrizes que conseguem os papéis de estrela depois de um bom teste do sofá; ou o mundo impecável de cabelos carregados de brilhantina, ternos riscado e cabarés cheios de fumaça de charuto e do torpor causado pelo uísque. O diretor também faz uso de clichês mexicanos para contar uma história de dentro para fora, onde realidade e ficção se misturam e consegue desde o primeiro minuto prender a atenção do espectador que se mantém maravilhado e incrédulo até a passagem dos créditos. E claro, cumpre o seu dever de despertar a curiosidade por Juan Orol, nome quase esquecido do mundo do cinema.

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Noites sem Dormir

Assinado por Eliane Raheb, o documentário “Noites sem Dormir” acompanha Assaad Shaftari, ex-oficial de alta patente de um grupo cristão e direitista que atuou durante a Guerra Civil do Líbano (1975 – 1990). A gancho se dá quando Assaad revela seus segredos mais obscuros sobre as incontáveis vidas que tirou ao lado de seus companheiros. É nesse ponto que uma história paralela entra em cena, a de Marayam Saiibi, que procura pelo filho desaparecido há trinta anos, jovem guerrilheiro que fazia oposição à frente cristã.

Construído de um modo pouco convencional para um documentário, “Noites sem Dormir” deixa evidnete desde o início que em determinado momento será inevitável um encontro entre Assaad e Marayam. Quando tal encontro finalmente acontece, a tensão que toma a tela é incrivelmente densa, pois mesmo fazendo uso de fotografia e planos de câmeras dignos de um filme ficcional, o que é mostrado é a mais pura realidade de uma mãe que confronta o possível executor de seu filho.

Eliane Raheb também aparece em cena na forma de um fio condutor entre as várias histórias que permeiam o seu documentário. Fazendo pouco uso de câmera estática, a diretora prefere acompanhar seus entrevistados para onde quer que vão. Fica evidente que a cineasta construiu toda uma atmosfera para sua produção documental, como o plano em que Assaad conta suas histórias cada vez mais sombrias em uma tarde chuvosa que culmina em um trovão e na queda de luz do quarto de hotel onde se encontra, enquanto tem de fitar seu próprio reflexo no espelho.

A sensação de ver ambos os lados da guerra de diferentes pontos de vista e como, 23 anos após seus término, muitas feridas ainda não se cicatrizaram e jamais se cicatrizarão. É como ver uma inversão de papéis, onde o sempre culpado Assaad busca o perdão sem jamais encontrá-lo, e onde Marayan busca por um fio de esperança em meio a toda a raiva que a consome. É sem dúvida, uma das produções mais impactantes já concebidas.

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As Borboletas de Sadourni

Depois da breve introdução do produtor Donald K Ranvaud, ficou claro antes mesmo de o filme começar que “As Borboletas de Sadourni” é nada mais, nada menos, que uma obra bastante peculiar. O prelúdio do filme foi filmado cerca de 10 anos depois da produção original; revelando os motivos que levaram à prisão do protagonista.

Após ter assassinado sua esposa grávida depois de flagrá-la na cama com outro homem, o anão de circo Sadourni se vê atrás das grades. Quando deixa a cadeia uma década depois, se torna a ponte entre seu ex-companheiro de cela e sua esposa, dona de um hotel. Quando não está levando correspondência de um para o outro, Sadourni sai em busca de um emprego para poder juntar dinheiro suficiente para poder realizar o tratamento que lhe dará a estatura de um homem comum. Porém a obsessão com sua estatura o leva mais uma vez entrar na mira da justiça, tudo isso enquanto se apaixona pela bela atriz pornô, Alexia.

Dirigido por Darío Nardi e estrelado por Christian Medrano e Antonella Costa, “As Borboletas de Sadourni”, o filme presta homenagem ao gênero noir enquanto brinca com os exageros mais absurdos. Com um estilo bastante autêntico, a produção argentina sabe bem como usar sombras nos mais diversos planos e sobreposição de imagem sem fazer uso de nenhuma técnica especial. Vale o exemplo de quando Sadourni está examinando o panfleto com a programação do circo, e fazendo uso apenas da luz do sol cria uma sobreposição de imagem que revela de modo subliminar o lado sanguinário do anão.

Rodado inteiramente em preto e branco, sendo este tipo de imagem a perspectiva de Sadourni, a película também faz uso de imagens em sépia para mostrar o ângulo de vista de outros personagens. O uso de um filtro vermelho também é usado quando o pequeno protagonista entra no seu estado de berserker, correndo desvairado de uma lado ao outro da tela com seu canivete.

Incrivelmente estilizado mas perdendo um pouco o rumo da edição e da narrativa lá pelo meio da película, sendo mais longo do que deveria, “As Borboletas de Sadourni” é um filme ímpar que pode ser visto como arte de qualquer ângulo pelo qual seja examinado.

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A Menina dos Campos de Arroz

O filme “A Menina dos Campos de Arroz” acompanha os dias da pequena A Qiu, de apenas 12 anos. A garota mora com o irmão mais novo e os avós em uma aldeia no sul da China, tirando seu sustento da plantação de arroz dos arredores.

Narrado em primeira pessoa pela jovem protagonista como a um diário, a vida de A Qiu se modifica quando sua avó morre e seus pais tem de voltar da cidade para cuidar dela e de seu irmão. A sobrevivência se torna mais difícil e a família se vê frente a frente com desafios cada vez mais ferrenhos para conseguir se manter e realizar seus sonhos.

Dirigido por Zhu Xiaoling, o filme tem ares de uma produção documental e constrói sua narrativa de modo tão semelhante à realidade que logo de início a ideia de uma história verídica se estabelece e se mantém até o final do filme, quando os créditos começam a subir. Afinal, porque alguém iria conceber um filme ficcional de modo tão real?

Com uma sacada sutíl, “A Menina dos Campos de Arroz” se submete a retratar a vida como ela é, seguindo de modo linear até um clímax completamente inesperado, assim como a vida em si. Mas este é só mais um capítulo passageiro que não merece mais destaque que qualquer outro já mostrado. Xialing mostra que as vezes não adianta remar contra a correnteza, pois certos caminhos já estão traçados.

Sidewalk Stories

Dirigido por Charles Lane em 1989, “Sidewalk Stories” é o que se pode ser chamado de um filme cult. Totalmente remasterizado, o filme de baixo orçamento traz uma linguagem completamente diferente da utilizada pelo cinema na época em que foi lançado. Filmado em preto e branco e quase que inteiramente sem falas, o filme de Lane presta homenagem ao clássico “O Garoto” de Charles Chaplin.

Na trama, acompanhamos um artista de rua que vive de a desenhar as pessoas para sobreviver. Um dia ele se vê cuidando de uma garotinha cujo pai foi assassinado. O filme mostra o cotidiano sofrido do artista e da garotinha nas ruas de Nova York, daí o título “Sidewalk Stories”, ou em tradução livre, “Histórias da Calçada”. Em determinado momento momento o artista conhece e se apaixonada por uma bela mulher da alta sociedade, tendo de aprender a lidar também com o preconceito entre as classes.

Para ajudar a contar sua história, Lane dispensou os letreiros com as falas dos personagens que faziam parte dos filmes mudos de outrora. Ao invés disso, optou pelo uso ininterrupto e extremamente expressivo de músicas instrumentais para ajudar o espectador a compreender os sentimentos e pensamentos de seus personagens. Com planos sequencias em 2D, Lane desenvolveu todo um estilo exclusivo para “Sidewalk Stories”.

Restaurado pela Carlotta Films com apoio do Centre National du Cinéma et de l’Image Animée (CNC) e do L’Immagine Ritrovata de Bolonha, “Sidewalk Stories” ganhou o prêmio do público no Festival de Cannes no ano de seu lançamento.

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A Camarada Kim vai Voar

Atraído pelo título nada convencional de “A Camarada Kim vai Voar”, pude ficar mais tranquilo quando vi que o filme que começava a se desenrolar na tela diante de mim era de origem coreana. Já era motivo suficiente para me entregar à experiência que ia tomando forma, este sendo o primeiro filme a ser rodado no país esquerdista com financiamento estrangeiro, no caso uma coprodução entre o país de Kim Jong-un com Bélgica e do Reino Unido.

Dirigido por pelo trio Anja Daelemans, Kim Gwang Hun e Nicholas Bonner, “A Camarada Kim vai Voar” acompanha a vida da jovem Kim Yong Mi desde sua infância e o seu fascínio em voar. Encorajada pela mãe, o desejo de viver com os pés fora do chão faz com que Kim se apaixone pelo mundo das acrobacias. Porém, após a morte da mãe, Kim passa a viver para o trabalho na mina de carvão da cidade de onde mora com o pai e sua avó. Quando tem a oportunidade de passar um ano na capital Pyongyang trabalhando na construção civil, Kim tem a chance de conhecer sua heroína acrobata e tomar e entrar para o circo, mas não sem passar por alguns altos e baixos.

A produção assume desde o início um tom leve e otimista. Mesmo com os dramas apresentados, a mensagem de que a força de vontade nunca deve ser perdida se mantém durante todo o filme, culminando nos momentos completamente inesperados que este traz. É claro que por traz de todo esse positivismo fica clara a mensagem favorável à visão governamental da Coreia do Norte, uma espécie de utopia proletária.

Misturando pinturas tradicionais asiáticas nos créditos e passagens específicas de tempo durante o decorrer do filme, “A camarada Kim vai Voar” tem um bom equilíbrio na fotografia bem colorida com as animações campestres e os sorrisos incontáveis que permeiam toda a película. A mensagem de que qualquer um pode realizar seu sonho é passada de modo claro e satisfatório, como se fôssemos crianças assistindo a nosso desenho animado favorito onde o herói sempre triunfa no final.

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Amanhã é Distante

O documentário “Amanhã é Distante” acompanha um grupo de quatro adolescentes de Paris que viajam para a África do Sul durante a Copa do Mundo de 2010. Atuando como repórteres amadores, captando as diferenças culturais e socioeconômicos do país, os jovens também são alvo das câmeras do diretor Jean Baptiste Saurel.

O cenário do esporte, na verdade, se torna o pano de fundo para que o verdadeiro foco do documentário seja mostrado. No caso, a relação dos quatro jovens protagonistas e como eles se envolvem entre si. Primeiros romances, desilusões, brigas e até dívidas, tudo enquanto sentem saudades de suas famílias.

É por este motivo que uma lacuna se abre na cabeça do espectador que não sabe se está vendo um documentário sobre futebol ou sobre descobertas juvenis. Não é difícil deixar de se concentrar em determinadas passagens da película enquanto faz uma retrospectiva mental do que já foi mostrado na produção de Saurel.

Com um começo jogado, um meio perdido e um final sem conclusão, o documentário “Amanhã é Distante” é entediante. Apesar de não deixar sua marca, não chega a ser irritante e dá a oportunidade de se fazer qualquer outra coisa mais proveitosa durante a sessão.

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